O Cravo Incessante


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Resoluções.

Sou a pior criatura que conheço.


Não vou hesitar ao dizer isso. Nunca mais. Sou a única fonte de minhas alegrias e decepções, de meus problemas e conquistas. Creio ser inútil tentar culpar qualquer outro acima de mim. Isso sem dizer, obviamente, que sou o único ser que conheço por todos os ângulos. Reconheço o quanto tudo isso soa estúpido, mas se tiverem paciência, existe um motivo atrás de mais este desabafo.


O ano de 2010 foi uma merda. Não correspondeu expectativa alguma que tinha dele. - Mas por um lado, talvez eu realmente não esperasse nada. - E consigo me lembrar do champagne, dos gritos e da alienígena roupa branca que repousava em meu corpo enquanto eu comemorava o recomeço do ciclo. Doze meses.


Eu precisava sobreviver apenas mais doze meses pra tudo começar de novo. (Aliás, justamente por isso que não dou valor algum a essas datas comemorativas. Algum de vocês vê graça em água evaporando e se liquefazendo? O princípio é de mesmo valor para mim.) ... O mesmo vale pra aniversários e afins, mas não entrarei em detalhes... Não interessa. Pois bem, doze meses. O ano seria algo inesperado. Me focaria em Teatro, Música, minhas amizades, leituras e todos os pilares que sustentavam minha vida no momento em que o relógio tiquetaqueou para um minuto depois da meia noite.


Resumindo... Os pilares eram feitos de material não muito confiável e eu não sabia.


Ou melhor. A culpa não foi minha. Tudo bem, a culpa total não foi minha. Mas de resto, - nessas horas que percebo como algumas crenças minhas são engraçadas - eu tomo o destino e os acasos como colaboradores.


Ok, discorro. 


Teatro.


As peças teatrais que participei me trouxeram ótimos resultados. Aprendi muito com o elenco todo do lugar em que trabalhei, e minha diretora me ensinou uma das maiores virtudes da vida: lidar com crianças e perceber o quão maravilhoso é o pensamento limitado e ao mesmo tempo fértil ao extremo delas. São anjinhos. Tudo é uma graça tremenda e, salvo algumas que nasceram para formar o séquito do novo Anti-cristo, agradável em dias tenebrosos. São pequenos querubins que desejam sua atenção e carinho. E suas maiores conquistas são baseadas nos momentos em que percebem o quanto são maduros para a sociedade em que vivem. Eu os amo, eternamente... E muito do que descobri de mim foi graças a eles. Eu particularmente nunca abandonei essa última característica, justamente por nunca ter me sentido uma peça nas ruínas do Pensamento Social Atual.


A oportunidade de elaborar um roteiro a partir de um livro abandonado em um sebo, e adaptá-lo para um Musical... Foi única. Tecer a trilha do espetáculo, a profundidade das personagens... Embarcar em um universo em que eu era tão onipotente quanto os autores das obras que me sustentaram foi delicioso. E não posso dizer que me decepcionei com o resultado de tanto trabalho e dedicação.


Por fim, para fechar esta categoria... Aceitei participar, depois de certa dúvida, de mais uma montagem na escola que tem sido minha fonte para a cultura Musical Theatre. E bebi em grandes goles tudo o que pude absorver. As experiências, os contatos, os desafios, os tombos e risos. Me apaixonei mais e mais por pessoas que nem via com tanta freqüência... E... Não quero me prolongar muito neste parágrafo porque não tenho o que dinamizar sobre ele. Foi fantástico. E morre neste adjetivo.


A Música.


Uma das experiências mais estranhas para mim continua sendo me ver tão amante destas malditas manchas nas folhas com cinco linhas. Eu me lembro de que até uns dez ou onze anos de idade... Música era uma das coisas mais babacas na minha vida. Eu não conseguia encontrar graça alguma em ouvir Cds, decorar letras e cantar. Não conseguia. Como eu era uma criança doente. Céus.


Um arrependimento meu é este. Se eu tivesse sucumbido a esta Arte, que agora é apenas uns setenta por cento da minha vida, mais cedo... Minha voz teria sido a de um sopranino... E eu mesmo poderia me orgulhar de ter sido uma das vozes que me arrancam o coração hoje em dia.


Mas eis que a Música é uma Dama Exigente. E quanto mais dedico meu sangue a ela, mais sua sede aumenta... E as teias de sua influência sobre minha vida me sufocam. Me amarram os membros e puxam para todos os lados até eu gritar que estou sendo arrebentado. A parte engraçada? É preciso aceitar a tortura. Ponto. E todos os maestros e sábios querem que seja assim. Querem cada célula sua apodrecendo de tantas notas permeando-as. Querem que você seja um cancro musical ambulante... Disseminando seus sintomas terríveis de falta de nexo e divindade para aqueles que não entendem metade do que você diz. Ou entoa.  ... praticamente uma vida religiosa, digamos. Se padres não fazem sexo - ou pelo menos deveriam não fazer... - , Músicos não vivem de mais nada que não seja Música.


Mas pelo menos fazem sexo. Heh.


E assim, reconheci que preciso de mais tempo para me julgar aprendiz deste microcosmos da comunicação humana. Um ano e meio não bastou para me firmar nem um pouco. E não desistirei. Se eu precisar virar um novo Beethoven e ensurdecer de tanta abdicação... É isso que terei em mente cada vez que pensar em desistir.


Minhas amizades.


Ah, minhas amizades - Espera. Que amizades?


Amigo meu, sou eu. Disso estou certo. Apesar de que grande merda de amigo eu sou às vezes. E aí reside a resposta.


Não consigo ser bom nem mesmo para mim, e fico surpreso quando dizem que estou sendo bom para os outros. Quando dizem que me amam. Que gostam da minha companhia. E uma das frases mais valiosas do ano foi me informarem que "sou tão amado justamente por ser quem sou. Nada mais." Acho que as pessoas são cegas e sofredoras de alguma demência.


Só queria que todos entendessem que um ponto dessa frase que ouvi faz sentido. Eu sou quem sou. E se tem uma coisa que absorvi durante essa minha curta vida melancólica e altamente dramática. - Por minha culpa e vontade, não que eu sofra muito... E tenha provado do chocotone que o diabo amassou... ou algo parecido. - É que devo ser o pilar mais alto no Altar dos Meus Sentimentos. Acima de Deuses, de qualquer Crença ou Moralismo. Porque, meus caros, tudo é baseado na falta de certeza da vida.


Pensem.


A Morte em si, nossa única certeza... Não é uma resposta. Não resolve nada. Estamos certos de que ela existe, claro. E o que vem depois? Ninguém sabe. Ou seja, se até as poucas certezas que temos não nos deixam em paz completa... Por que devo eu me preocupar com respostas pra perguntas imbecis e provas de que não sou defeituoso? Dane-se.


Não confiem em mim. Eu não confio. Não me amem. Eu me amo, mas sempre mantenho um pé atrás. - Consigo ouvir os chatos que vão me jogar na cara momentos de baixa autoestima neste momento. Quero que vocês sintam meu cuspe em suas testas nesse momento. Falou? -  E, queridos, mantenham sempre uma coisa em mente: eu os amo. Todos. 


Metade dos que conheço me odeiam... E acho que metade disso são as pessoas que detesto de volta. De resto? Todos os parafusos vagabundos que quebraram me fizeram persistir em achar os bons que prenderam as peças e figuras. Até mesmo meu ódio pode ser visto, portanto, como uma forma de homenagem.


Nem comentarei que quando me apaixono, mimar o alvo de meus caprichos é mais algo para me satisfazer ao vê-lo feliz do que qualquer outra coisa.


Eu não minto para vocês, jamais. Minto primeiro para mim mesmo. Assim como Anne Rice diz em um dos seus livros. Roubarei esta frase por ser tão oportuna.


Por fim...


Estes últimos meses foram presentes e pesadelos, e devo reconhecer isso mesmo que não goste. Me fizeram refletir sobre o rumo que devo tomar, sobre os arrependimentos que devo abandonar... (Deixem-me também reforçar que arrependimentos são perda de tempo pra mim. Aprendi o que tinha que aprender no momento em que errei, então não vou reviver estas épocas buscando algo além do que já refleti. Não adianta. Seria o mesmo que arrancar um naco de pele cancerosa e esperar que outra doença se instalasse no lugar para comparação.) Passou. Terminou. Aprendi ou não. E basta.


As amizades novas que conquistei - e as que reconquistei e/ou alimentei também entram na lista - circulam dentro de mim todos os dias. Me fazem sentir o quanto é perfeita a imperfeição humana... E como a individualidade de todos é apaixonante. Me excito em descobrir detalhes banais sobre meus companheiros e me prendo a eles para ressaltar o quanto meu amor forjou sua chave em fatos mundanos. Eles são meus companheiros, e andamos se não de mãos juntas, pelo menos em passos paralelos, na Desafiadora Estrada Sem Resposta. Tão auto-ajuda isso, né? Mas foi o que consegui.


Ah. Os que partiram? Os que erraram? Os que abandonaram? Os que sentem asco por mim? ... Todos me amam de alguma forma doente. Eu sou uma das imagens dos camafeus de seus corações feridos. E são muito queridos por mim. Se Deus possui o Diabo para discutir... Eu mereço espinhos para fazerem valer as Rosas. E que fique claro que prefiro ser o Diabo nesta comparação. Me parece que o único que evolui com tudo é ele. O Outro nem faz nada, se acomodou com os próprios erros e fica vendo no que vão dar. É.


Resumo da Ópera: Tudo o que esqueci fiz porque achei ser o próximo degrau a subir. Isso não me faz abandonar os degraus que me ergueram anteriormente, nem nada parecido. Admito somente isso. De resto, os que me conhecem entenderão o que quero dizer aqui... Mas não direi.


Minhas leituras todas foram de fundamental importância para a fogueira da sanidade não apagar na minha mente. Acabou. Se quiserem, vejam a coluna ao lado... Minhas recomendações de livros ficam por lá. Bah.


Finalmente termino estas linhas. Não fazendo idéia do que escrevi, do que fez sentido e do que foi sincero... A maioria deve ter sido mero desabafo. Não injetem muita fé não.






Espera, estou falando com quem? Ninguém vai querer ler um texto tão grande.






Mas se eu fosse você... Você mesmo, que pulou para as últimas linhas... Pelo menos arriscaria ler um pouquinho... Vai que blasfemei seu nome lá em cima, né?

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Para quê um título?

Pode ser meu corpo pedindo arrego, pode ser bobagem que passará assim que eu acordar... Pode até os shots de tequila que tomei...

Mas hoje consegui algo que buscava há tanto tempo... Tanto.

Vocês tem a noção do que é finalmente conseguir um objetivo que apenas há alguns meses atrás te arrastava sempre para um fracasso decepcionante? Eu chegava a questionar absolutamente tudo em busca de um algoz - que sempre era eu, no fim - e desistia.

E eis que deu certo. Certo. Cinco letras. Essas malditas cinco letras juntas que fizeram minha noite.

Não sei se vai durar sem conflitos, se vai dar a merda que dava sempre... Eu não ligo. Não ligo. Foda-se. Deu certo, sabe? Eu acho que mereço esses minutos incríveis onde tudo parece fazer um pouco de sentido na minha vida.

Acho que o terrível e errante Príncipe das Trevas obteve uma lasca daquilo que todos sentem e ele nunca foi presenteado. Eis que chega a hora de eu me desenterrar de uma vez destes palmos e palmos de más memórias. Agora as gargantas das Moiras são minhas, e a sede é imensa.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Remember Remember The 5th of November

Remember, remember the fifth of November,
Gunpowder, treason, and plot,
I know of no reason why the gunpowder treason
Should ever be forgot.
Guy Fawkes, Guy Fawkes, ’twas his intent
To blow up the King and Parliament.
Three score barrels of powder below,
Poor old England to overthrow;
By God’s providence he was catch’d
With a dark lantern and burning match.
Holloa boys, holloa boys, make the bells ring.
Holloa boys, holloa boys, God save the King!
Hip hip hoorah!
A penny loaf to feed the Pope.
A farthing o’ cheese to choke him.
A pint of beer to rinse it down.
A faggot of sticks to burn him.
Burn him in a tub of tar.
Burn him like a blazing star.
Burn his body from his head.
Then we’ll say ol’ Pope is dead.
Hip hip hoorah!
Hip hip hoorah hoorah! 

Uma tradução livre e rimada (poética):

Eu lembro, eu lembro, do 5 de Novembro,
Pólvora, traição, e conspiração,
Para esquecermos da pólvora a traição
Não vejo nenhuma razão.
Guido Fawkes, Guido Fawkes, em seu intento
De levar pelos ares o Rei e o Parlamento.
Três barris de pólvora contados sob a terra,
Para arruinar a pobrezinha Inglaterra;
Deus em sua vontade o fez capturarem,
Com sua negra lanterna e fósforo a faiscarem.
Vamos rapazes, Vamos rapazes, fazei o sino badalar!
Vamos rapazes, Vamos rapazes, para Deus o Rei salvar!
Hip hip hoorah!
Um naco de centavo para salvar o Papado.
Um queijo bem barato pra engasgar.
Uns goles de cerveja pra fazer descer.
Gravetos à granel para queimar.
Queime-o no piche de uma banheira transbordante.
Queime-o feito a estrela ardente e ofuscante.
Queime-o só o corpo decaptado.
Para então dizermos que é defunto o Papado.
Hip hip hoorah!
Hip hip hoorah hoorah!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

La Reine ( Conto )

        Podia jurar ainda ouvir o cântico fúnebre nas ruas fétidas e asquerosas, o choro dos últimos jardineiros das Flores-de-lis. Era tudo extremamente sentimental e animalesco, e obviamente delicioso. Todos dormiam, e apenas os passos daquele espectador atrasado ecoavam nas pedras cobertas de sujeira, sangue literalmente pisado e vestígios humanos. A Sombra da Morte era tão intensa que causava arrepios em sua pele gélida.
        A testemunha da terrível noite de dezesseis de outubro de mil setecentos e noventa e três. Com certeza era a última testemunha do cadafalso ainda exalando cheiro de sangue azul. Sangue doce. Sangue inocente, de acordo com suas narinas e convicções. Mas o que poderia ele fazer? O que desejaria fazer, por acaso? Pois bem. Suspiro longo, a escuridão absoluta inundando sua alma através dos pulmões.
        Finalmente criou coragem para dar alguns passos a frente… Caminhou sem pressa alguma, como se cada membro seu fosse uma parte morta do organismo que necessitava ser reavivado antes de receber alguma ordem. A mão direita repousava no peito, roendo o bordado dourado da gola do casaco com as unhas; feito um predador analítico. A mão esquerda apoiava-se na espada fria que carregava na cintura, onde os dedos dançavam com a bainha. Por fim, controlou seu nervosismo contido e olhou a seu redor. Como terá sido? Pessoas gritando e cuspindo naquela pobre mulher? O pequeno avestruz foi rejeitado feito um bicho no abate? Ah, sim…
        Podia ver a pobre ci-devant graça em sua cela, abraçada por seu luto recente, permeando as fases do epílogo de sua vida. É realmente uma sensação única receber sua sentença de óbito… Tudo aquilo que foi feito torna-se um fardo, e o que foi esquecido uma amarga esperança eviscerada. As lágrimas rasgam as córneas em manadas, até o coração esvaziar por completo. Cria-se então o nojo por qualquer sentimento de dor, ressentimento, mágoa, arrependimento e até mesmo tristeza. Assume-se uma postura altiva, arrogante e sombriamente angulosa. O olhar perde o brilho para transparecer dignidade. E assim foi com nossa querida amada… Por que não?
        Sorriu. A morte é tão poderosa quanto o amor, não é? Nos possui de formas tão variadas e sórdidas… Sempre esgueirando-se entre as frestas de mentes fracas, oprimidas e drogadas. Ergueu a lâmina da espada em riste e gargalhou. Venha, minha amiga! Venha até mim! Eu a salvarei. Eu serei teu anjo. Abram espaço, soltem A Rainha! Ela virá comigo! Invadiria sua própria jugular com alguma lâmina e esparramaria seu sangue sobre aqueles lábios fisgados pelo ódio tipicamente alemão. Sangue Impuro misturando-se ao Sangue Real. Lambendo cada veia seca e doente, subindo por cada fio de cabelo arrebentado pelo passado. Ah… Ela seria uma visão…
        Cravou a espada no chão - uma bengala provisória para seu deleite - e aproximou-se de uma vez da estrutura de madeira… A espada se espatifou e tiniu. Eu perdi minha chance, querida. Sinto muito. Por alguns segundos imaginou a breve melodia daquele monstro. A Guilhotina. Vshhhhhhhhhhhhhh e o som da espinha sendo partida ao meio. Rapidamente a cabeça cairia na cesta, regendo o início do coro de revolucionários sedentos. Uma cena que faria de tudo para assistir. Conhecia uma variedade de últimos suspiros humanos, mas aquele seria uma novidade excitante.
        Ouviu um choro à distância. Uma fêmea desesperada em agonia. Mon ange! Mon cher ange! Dieu! Era provavelmente a única janela aberta nas redondezas, e uma mísera vela lutava contra o vento para manter sua missão no interior daquele quarto. A curiosidade o incitou mais do que esperava e em poucos movimentos felinos encontrava-se bem abaixo da janela da donzela em perigo.
         - O que houve, Madame?
        - Meu filho, Monsieur! Meu filho! Eu estou o chamando há alguns minutos e ele não responde. Me ajude, pelo amor de Deus… Meu marido não voltou pra casa desde a comemoração da morte da Austríaca. Estou sozinha!
        Ela imediatamente tomou o garoto em seus braços e correu para o térreo. Destrancou a porta da pequena casa de forma estabanada… De repente, ele percebeu que o anjo nos braços finos da pobrezinha tinha mais ou menos oito anos de idade e vestia uma espécie de camisola levemente rota. A dama em si vestia roupas simples, de dormir, e estava completamente descabelada. Ela depositou a criança nos braços do estranho e dirigiu seu olhar ao dele sem dizer uma palavra. Chorava, muda. Estúpida, agarrou um terço pendurado no pescoço e resmungou algo. Um terço monstruosamente comprido e velho… Praticamente uma corda adornando a garganta de um condenado.
        Era claro que a criança estava morta. Ou algo similar a isto. As pálpebras não se moviam e a respiração era inaudível. O rapaz sentia sede. Extrema sede.
        Pediu para que a senhora o acompanhasse, para que o pequeno tomasse maior ar fresco. Caminharam até o local de execução, e era perceptível a presença de fantasmas e pobres-diabos invisíveis guardando o novo brinquedo do Novo Regime. A mãe não calava o pranto recatado, e isto o irritava profundamente.
        Ofereceu água, um balde d’água ajudaria? Ele poderia ajudá-la a refrescar a testa e o corpo do garoto? Ela não conseguia fazê-lo sozinha naquele estado de nervos… Buscaria uma esponja e panos limpos. Seu anjinho ficaria bem logo, todo aquele ar levaria a febre embora. Ele teve que engolir seu riso irônico. O maior remédio já havia sido dado e levado o calor embora daquelas bochechas redondas… Ele sugeriu algo melhor.
       Sob os olhos desesperados da leoa, subiu os degraus lentamente... aninhou a cria no obelisco assassino… E segurou a ponta da corda. A mãe gritava alto e correu feito uma pata, tropeçando mil vezes até alcançar a escada. Uma fagulha de comoção e comédia despertou dentro dele. Então desistiu da brincadeira e abriu os braços à ela. 
        Ele está juntamente a seus irmãos anjinhos, minha querida. Lá em cima… Cortejando aquela doce criatura que foi libertada do sofrimento hoje… Pequenos Orfeus aguardam Nossa Majestade em um uníssono coro.  Um coro capaz de abafar o coro  suíno e pútrido que gritou enquanto ela ainda vivia e seus olhos lamentaram antes de serem cegados pelo metal… Metal mais caloroso que a nojenta nação que ela tanto tentou alegrar. 
        A cadela desolada havia se acalmado com o discurso… Estava destruída, catatônica… Seus pequeninos pés aos poucos sucumbiram e tomaram o caminho daquele Demônio irresistível...
        Venha, venha minha pequena Antoinette… Abraça-me como as garras afagaram o pescoço de tua irmã…
Vítor  da M. Vívolo 9/12/10 às 3h28 da manhã.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Uma borboleta passou e alegrou meu dia. Muito obrigado, meus Deuses.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

É tão engraçado como antes me machucava e agora eu nem sinto mais.


No fim, sofrer faz bem. Muito bem.


Quando Marie Antoinette foi levada para longe dos filhos, em uma prisão... Sabendo que logo morreria nas mãos do povo sanguinário... Bateu a cabeça em uma das grades na saída, com força.... Quando perguntaram como estava, ela disse que não sentia dor alguma.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Apenas para dizer que estou vivo, que estou bem melhor. Agradeço a todos os conselhos e peço perdão aos feridos injustamente. Apenas aos do grupo 'injustamente', deixo claro.

Boa noite.

domingo, 28 de novembro de 2010

... Eu não consigo mais dormir... Eu não consigo.
Eu pedi minha única forma de me desligar dos sentimentos e das dores que sinto sem ser a morte. Será que vocês sabem como é isso? ...
   Toda noite eu choro até estar cansado demais para manter meus olhos abertos. Aí o meu travesseiro molhado das minhas lágrimas de remorso, ódio e insatisfação começa a pesar demais. E nem disso posso reclamar mais... Disseram que reclamo demais. Que sou insuportável.
   Eu perdi todos os meus amigos. Eu perdi as únicas fagulhas de amor próprio que havia conquistado na vida. E foi tão rápido, foi tão injusto. Eu nem tive chance de me agarrar a nada. A NADA.
   Nesse momento estou sozinho na sala, parei por umas cinco vezes porque meus olhos ardiam demais de tão inchados e não era legível o que eu escrevia. Estou irritado e enojado de mim mesmo por não ter nem sentido no que estou escrevendo... E eu costumava ser tão bom...
   Eu não quero pena. Não quero nenhuma merda de vocês. Eu quero deixar claro apenas que penso em desistir... E eu se o fizer... Um dos motivos foram vocês, e o outro fui eu. Não culpa de vocês, não. Apenas um dos gatilhos.
   Perdi tudo o que tinha. Que diferença faz se vocês perderem só mais um? Nesse momento uma das pessoas que talvez menos conheci na vida é a que mais faz sentido pra mim. Talvez me entregue em suas asas.
   Duvido que alguém leia. Duvido que alguém se importe. Duvido que eu queira viver pra saber.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Orchidaceae

Tanto tempo se passou e eu praticamente havia abandonado este refúgio. Não, estou sendo injusto. Apenas o relevei por cerca de um mês. De qualquer forma... Hora de atualizar minhas postagens, de alguma forma.


   Perdi minha fé nas pessoas. Todas elas.


   Eu não consigo crer realmente que vocês possam entender isso, a não ser que já tenham possuído tal sentimento. E quando me refiro a este, o faço da forma mais séria e confusa que consigo. Não é algo que esperamos que aconteça repentinamente, mas foi exatamente assim que ocorreu. E de um momento para o outro, um vácuo se eclodiu violentamente no âmago da criatura carinhosa que eu fora. A questão que realmente prevalece é se me faz genuína falta o que foi excomungado de mim.
   O gatilho talvez tenha sido a falta de ética, habilidade, reciprocidade afetuosa, e o cliché caráter alheio. O microcosmo da sociedade em que eu vivia - e por isso me refiro a meu ambiente e correntes de convívio diário - expôs as tripas das mentes ridículas que mascaravam-se na multidão. Estas mentes resolveram mudar de opinião, costumes e valores. Sendo que o maior problema não é a mudança constante destes, e sim a mudança constante sem consistência alguma.
   E quando olhei para formas imutáveis de carinhos mortos, faisquei meus neurônios em busca de respostas. Nada. Eu não sentia mais nada. Por nenhuma daquelas misturas grotescas de carne, sangue e cálcio. Eu era um abutre, de longuíssimo bico fúnebre e faminto. Para mim não representavam conforto, poço de atenção e respeito. Não. Eram lírios mortos e eu o colibri.
   A sensação era desoladora... Mas corria dentro de mim uma espécie de morfina espiritual. Consciente de que não sentia nada e de que não desejava mudar, cuspi em cada testa e boca que pediu por favores ou piedade minha. Haviam feito o mesmo comigo, que crime há nisso? Eu havia sido regado com o cuspe cínico daqueles que diziam ser meus amigos, companheiros, portos seguros. Inúteis. Filhos da puta.
   Por fim, quando quase tropecei no remorso... Todos começaram a perceber os vestígios da falta que fiz. Decidiam me tratar bem, declarar amor e consideração. Optei por ser educado e corresponder um pouco. Mas... eu ainda não sentia nada. Nenhuma consideração, por nenhum deles. Era mentira.
   E neste estágio ainda me encontro. Buscando o florescer de meus sentimentos novamente. Esperando pacientemente. Conforta-me saber que ajo como as orquídeas, enganadoras das terras e vasos que as sustentam. Aparento a morbidez de meu coração, quando na verdade sei que se decidir... Poderei fazê-lo voltar a bater.
   Responda-me apenas se vale a pena. Você não invejaria alguém morto por dentro? Não existe prejuízo em não ver, se você mesmo optar por ser cego. ... Talvez um simples abraço, beijo, retribuições sinceras e fortes - e justas, pelo amor dos Deuses! - de tudo o que senti por todos eles bastem para me fazer mover a tampa do caixão. 
   A mensagem disto tudo? Eu cansei de cuidar, ajudar e me entregar aos meus amores... E nenhum deles me ver da mesma forma. ... No fim... dói muito mais escrever de forma tão simples como fiz agora. Me faz ver como me transformei em Aquíles. Observo meu espectro. E observo que ninguém se importará em ele abandonar sua morada desvalorizada.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Gótico Grotesco. (Poesia Antiga)

Pessoalmente, esta é uma das minhas poesias favoritas. Um dos primeiros sonetos que escrevi, e um dos mais sinceros também. Eu a carrego muito próxima de minhas vísceras, espero que gostem.



Gótico Grotesco
E comido pelos abutres sou
Cada um carrega um belo camafeu
Na alva madre-pérola que brilhou
Entalhados rostos de amigos meus
Os bicos maus arrancam as vísceras
Os meus músculos sendo arrebentados
Línguas bifurcadas de mil víboras
Baforadas de cigarro dos Diabos
Lúcifer recobre-me de catarro
Vômito viscoso dos condenados
Chamas fumegantes aos expurgados
Sinos metálicos do réquiem nobre
Fedor de enxofre, lítio, prata, cobre
Tenores, sopranos e os violinos morrem
Vítor da M. Vívolo 08/10/08

domingo, 26 de setembro de 2010

Poesia antiga. Sermão Pagão.

Sermão Pagão
Mas como sinto-me estranho!
Algo que nem aspirina resolveu
Parece que estou atado ao chão
E mesmo assim flutuo
Vejo a brisa pentear a grama
Fico preso no adocicado crepúsculo
O Lusco-Fusco, a mudança de armadura e claves
Todos fazem fila para a comunhão
Tomo minha vaga, cheio de fé
Não a fé cega e aduladora
Apenas meu credo e crime
Pego a hóstia e dirijo à boca
Abro languidamente os lábios
Para que a língua do Senhor me penetre
Não é molhada.
Nem ao menos tentadora e viscosa
Não sinto sua barba arranhando meu queixo
Tudo se resume a um gosto de papelão
Uma massaroca gosmenta grudada no céu da boca
Minhas papilas estão mortas
Procuro um canto escuro e cuspo aquela baba farinhenta
Onde está o gosto do vinho?
O Padre arma as garras
E começa o encantamento gorfado por Deus
Voyeurismo, narciso, hipócrita
Que somos nós senão aspirantes a Dâmocles?
Ah, predestinados fios de cauda de cavalo!
Tão, tão, tão frágeis
Cruel e hilário púbere
Já a procura de Mephisto
Devorando o útero da mãe ampulheta
Onde fica o bulcão da auto-suficiente falta de próprio amor?
Todos dizem que tu és a resposta
da carência do espelho
Pura masturbação da ignorância
Placebo amargo
Seu antibiótico está lá fora
Não a aceitação a si mesmo
Mas a proporcionada relação
Talvez recíproca de júbilo,
Prazer e torpor existencial
Aos amados casos de amor
Ó, Pai dos Céus
Cadê tua pena? Tua voz?
Tua promessa pederástica?
Então permaneça em dourado trono
De diáfanas palmas escondidas
Até a anarquia estuprar o livre-arbítrio
No meio do caminha havia uma pedra
Havia uma pedra no meio do caminho
Chutei a porra da pedra!
Depois a tomei e repousei no bolso
Sempre de estilingue em punho
Ao som da crepitante fogueira
Abafada pelos gritos de Joana
Filha tua, a do Arco, ainda se recorda?
Veja bem, tua carne foi desvirginada por pregos
Cravada em madeira podre
Exposta ao sangue fresco fluindo
Sob o infernal escudo de luz vital
Se és tão auto-flagelador…
Como posso tomá-lo por onipotente?
O coração não raciocina
Nada mais faz do que pulsar
Uma válvula, bombeando o fluxo
Pois eu serei o verme a se instalar nele
Honrando Chagas
Eu tentarei modificar o destino no plasma
Sociedade, sou o câncer que criaste
O Anjo que expulsaste
O Catarro que te polui
E o maior fruto da horta
Negra orquídea matando Pássaros-do-paraíso
Desista de me combater
Os linfócitos sobre mim nada compreendem
Isso me motiva
Sedento por vê-la em eutanásia
Minhas companheiras?
Crocantes baratas, sobreviventes
Ao Holocausto Humano
Febre Wertheriana mas sob
vazia vazão de razões
Um urubu pousou em tua sorte
És água, eu mercúrio
És chuva, eu jorro de sangue
És futuro e passado, eu realidade
És ânus da podridão
Eu, falo de conexões químicas,
milhões de mil dendritos
Neste imenso e frio
Orfanato de Surdos
Um berro de agonia
Ou prece de aflição
São muito úteis, mesmo
Tua AIDS, tua Fome, tua Guerra
Sendo indiferentes das que
Colorem o pesado Livro Sagrado
Sustentando e mantendo em pé
A animalia em nossas cadeias genéticas
Ateísmo? Bobagem. Eis apenas
A Convicção da existência
Que tomo como incontestável:
A Minha.

Vítor da M. Vívolo 29/12/09

Livre Ensaio Sobre Absolutamente Nada

Inicio este post simplesmente por vontade minha. Eu não possuo ambição alguma ao começar a escrevê-lo, muito menos sei o que desejo expressar. Neste exato momento apenas sinto-me indignado com o rumo que permiti que minha vida tomasse, a imbecilidade que parasitou meu julgamento social e que agora é tratada para atingir sua ruína. Raiva, pura, simples, e merecida RAIVA.


Eu poderia enrolá-los com mil palavras e discursos sobre hipocrisia, falsidade, distorção sentimental e afins... Mas nada disso expressaria de forma sincera e real os maus tratos  aos quais fui submetido. Taxaram-me de volúvel, manipulável e emocionalmente frígido. Último adjetivo este que me faria o maior dos bens caso fizesse jus a mim. Eu preferia mandar todos à merda, e dar minhas costas, a ouvir ofertas imbecis e pedidos egoístas.


Provavelmente eu amo você. Na verdade, é absoluta certeza. Independente do quão cretino você seja. Sabe o motivo disso? Minha velada crença na perfeição daqueles que guardo perto de mim. Como se apenas eu fosse nutrido de possibilidades falíveis e cruéis. Aliás, esta é uma das minhas dádivas... amar pessoas dignas, respeitosas, e incríveis... e ao mesmo tempo amar pessoas completamente idiotas e que me trazem situações péssimas e amorosamente frustrantes.


Provavelmente quem deve ser atingido por minhas palavras e raios de revolta através deste refluxo de desabafos não perceberá que é meu alvo. E meus amados anjinhos chorarão por sentirem-se ofendidos, quando na verdade nem pensei em dividir uma vírgula destes parágrafos com eles.


Não confie no julgamento alheio. Por favor ouçam... Porque bondade é a responsável por cerzir os forros dos capachos. 


Não é a toa que acordei com dores nas costas ontem e hoje.


Confio apenas em minha Amazona Francesa, minha Guerreira-Irmã de Sangue e meu Angelo di Ella nesse momento.


Boa noite.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Trindade ( Conto )

Trindade
Tantas linhas tortas na partitura. Era impossível discernir gotas de sangue que foram gorfadas das notas originais da composição. No fim, fizeram belas coloraturas acidentais por todo o aposento… Alguma cor além do ouro espectral chorado pelas longas velas decadentes.
- É este o castigo que me afligirá para provar Sua existência? - levou a manga aos lábios para secar a fonte de hemácias fugitivas. - Bastardo. Filho de uma puta!
Uma punhalada de líquido impediu que continuasse. Suas entranhas se derretiam em guturais golpes de dor vermelha. Cada engasgada era o exorcismo da vida intrusa que desejava todas as curvas de sua garganta. As mãos encharcadas marcavam os móveis, tecidos e páginas virginais. Mesmo assim, ele insistia em se firmar em algo…
A respiração era arfante e úmida enquanto ele sentia a imensa queda de realidade. Taças haviam esmurrado seus ombros e se transubstanciado em cristais fedendo a álcool. Livros gordos das gotas de chuva vomitadas pelas janelas apodreciam no chão. A tinta vermelha que expelia tentava reproduzir o crepúsculo, ao pingar sobre as poças de lágrimas do céu lambidas pelo luar.
Precisava gritar, mais do que respirar, mas tinha medo. Seus pulmões já estavam praticamente do avesso. Sentia o coração em contraponto ao metrônomo sobre o piano. Era tão doloroso.
Por fim levantou-se ao notar o leão raivoso dentro de si acalmar seus rugidos. Havia abortado seus fluídos mais viscosos e rubis por completo, talvez. Cambaleou, até o chão decidir-se por endireitar o horizonte. A neblina dos olhos evaporou, e as mãos se apaixonaram pelo firme mármore da pia do banheiro.
O último dos demônios sangüíneos se estatelou no mármore confiável. Só então germinou a coragem de fitar sua ruína no espelho. Era sempre pavoroso reconhecer o monstro que já se julgava sob o véu da anemia da voz. Desdenhou da moldura de flores de lis daquele oráculo vitrificado.
Ergueu a cabeça e jurou guerra ao que viu. O abandono dos céus e infernos finalmente havia se encarnado em seu crânio. Nada regava vida em suas faces, os lábios tingidos gritavam fúnebre decreto. As veias saltavam sem cor, simulando vermes mortos estacionados sobre a carne. Os olhos escuros eram empaladores.
Uma luz nasceu em seu olhar, acorrentada à torrente salínica que dançou nas curvas do monstro refletido. Fez-se breu em sua mente e os cílios eram a represa que improvisou desesperadamente. Cobriu o rosto com os cabelos desgranhados e fatiou a pele com as unhas rubras.
- Por que não me leva?
Silêncio. Música da garoa lutando para sobreviver lá fora. Fermata daquela persistente dentro dele. Tomou consciência do peso de suas vestes ensopadas por substâncias. Eram sua deliciosa prisão, o placebo para sua dor.
Rasgou os tecidos inocentes enquanto suas garras saciavam a violência do toque. Em um segundo se encontrou liberto. Perambulou o corpo lactescente até apalpar a genitália. Esticou brutalmente a pele recheada. Sentiu a costura das cicatrizes de sua voz.
Ele era isso. Friccionou-se. O tegumento artificial do canto dos anjos. Gemeu. A escultura dos moldes gregos, incompleta. Cresceu. O espírito dos maestros apaixonados… Fricção… pela suplicante… mão puxa… voluptuosa… mão estende… Deusa da Inspiração… Mais rápido.
Volume… Olhem para ele!… calor… Recheado de aspirações daquilo que não é… fluxo de quentura… mais… ah… por favor mais… vai… vem… sobe… desce… Venham demônios! ...movimentos de quadris… Anjos! … baforada… Almas dos infernos terrestres! Venham me tocar… Me lamber… involucrar meu desejo com suas úmidas superfícies…
Explosão. Dor. Cicatrizes latejando. Exaustão. Nojo.
Ele sabia que seus dias de missão estavam contados. Apenas havia se esquecido que a invulnerabilidade dos Deuses morria fora dos palcos. E ele nada mais era do que um Evirato de Adão e Eva sucumbindo juntos à serpente da vaidade vocal.
Vítor M Vívolo 16/09/10 00:58 a.m.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Boudoir ( Conto antigo )

Me deu saudade desse conto. E eu resolvi postá-lo aqui.

Boudoir
    Estava adormecido por um tempo. Despertou languidamente, estendeu os braços no ar, tentando expurgar o cansaço ainda restante. Esfregou os olhos, bocejou e procurou discernir os objetos do quarto na escuridão. Sentou-se na cama e fitou as sombras. Foi quando pôde ouvir a melodia ao longe.
    Então não era sonho, ele realmente podia ouvir um piano sendo derretido em notas harmoniosas. Levantou-se. Conhecia aquela música. Vibrante, densa. Uma Sonata de Haydn, tinha certeza. Caminhou até o batente da porta e descansou a cabeça na madeira fria. Tudo ainda estava afundado em trevas, apenas um resto de luz âmbar banhava as paredes. A lareira estava acesa.
    Desceu as escadas, seguindo o trajeto de luz e melodia. Atingiu finalmente a sala de música. Onde estava seu amante. Sentado, usando apenas uma longa camisola de linho branco, tingida de dourado pelas chamas crepitantes. Os dedos deslizavam pelas teclas, ágeis, esguios, delicados. Queria aqueles dedos deslizando sobre sua pele, acariciando seus cabelos, descendo traiçoeiramente para onde a exitação estava sendo alimentada.
    Aproximou-se cautelosamente, passo a passo… As notas graves mesclavam-se à sua densa urgência. Deixou a mãos tocarem os ombros do parceiro, que se mantinha calado. Pressionou levemente o linho, podendo sentir a carne tenra que era cobrida. Encostou seu peito nas costas do outro, que então sentiu o volume que o tocava. As notas pararam bruscamente.
    A mão direita do amante tocou a sua. O perfil de seu rosto finalmente começou a ser abençoado pela luz, tornando-se visível. Um rosto pálido, ligeiramente corado pelo sangue fresco que havia sido sorvido. Mesmo assim, era sobrenaturalmente gélido. Havia necessidade em esquentá-lo, em torná-lo abrasador. O outro rapaz sorriu, de maneira fraca e sórdida, movendo-se no banco para que houvesse espaço suficiente.
    Fez um convite, que foi aceito prontamente. Ambos dividiam o mínimo de distância possível. A mão da criatura frígida acariciava os joelhos do outro. Dançava malevolamente, procurando atingir a virilha. Era possível enxergar o volume formando-se também. E tudo que se ouvia eram suspiros ofegantes, súplicas silenciosas.
    A mão atingiu o cobiçado órgão. O amado deixou escapar um gemido quase inaudível. Os lábios tornavam-se sedentos. Logo trataram de se aproximar. Escorregavam, e antes que percebessem, já entrelaçavam as línguas. O amado laçou o outro com seus braços, o puxou para si violentamente, a relação carnal ganhava requintes animalescos. 
    As camisolas começaram a ficar ensopadas de suor, aderiam-se ao corpo, revelando formas e contornos. As mãos vagavam sem rumo. Eram traiçoeiras, apalpavam tudo aquilo que era cobiçado. Até encontrarem seu caminho por debaixo das roubas, agora incômodas.
    Sentiam a pele agora, sentiam a rigidez e a fúria dos hormônios. Era tudo úmido, latejante, ardente. Movimentos bruscos aconteciam, simulando a copulação. Jogos pervertidos. Provocações. O amante pairou os lábios no pescoço do acompanhante, penetrou as presas enquanto continuava o repetitivo toque. O amado sentia um fogo arder, mais vermelho que o da lareira, sentia os fluídos, o som molhado. Se contorcia inevitavelmente. O ar não era suficiente.
    O vai-e-vém ficou agressivo. Cada vez mais rápido. E ondas fortes de magnetismo o dominavam. Pensava que morreria de tão intenso fogo. Chegava a sentir dor, não aguentava aquele torpor querendo sair. Um formigamento o tomou. Seus pés se contraíram, seu corpo estremeceu. Um jato quente manchou o tecido. E a dormência rascava sua mente, deliciosa. Inevitavelmente urrou notas que o piano não podia captar. Eram sopros de ar, involuntários.
    E entregue nos braços do amante, sucumbiu. Exausto.

Vítor M Vívolo 12/09/09

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

The Letter

'Well, well, well... So here you are you presumptuous bastard.'


  And he walked at me, with his turned up nose and affected moves. He looked much more like a fat, old peacock than a human being. I couldn't help but laughing a little bit, whilst I tried to swallow a scandalous mocking impulse. It was utterly pathetic, but he just could not see it. Could he? No, indeed he was blind to that fact. He was bearing a smile - proud and large - on his pustular face when he handed me the letter.


'Please read it.'


'Is it for me?'


'Read it and then tell me.'


   I took a deep breath. And the air of the room had a flow of a disgusting smell, something like sweat and lack of sense. I opened the envelope and ran my eyes through all the weird punctuation, nauseating collocations and shallow linguistic murders. It all tried to make sense, but would not. Never. The author of this horrible expensive toilet paper was clearly a Narcisus without reflection. Some creature proud of flourished ignorance accusing the world of monstruous crimes. Even though the biggest crime of them all was to make this empty and narrow-minded heart of his to pump with the most delicious hippocra of life: warm blood.
   How can a lizard have blood licking his veins and flesh inside? Wait. He was not a cobra, not even close. He was an insect. A little bee... being carried away by the wind and trying to surpass its tiny brain and näive sting. A little creature living on the pólen of the damnest mistakes of ego and blind society. Someday it would hit a window. And then, only then... It would die, slowly... without even knowing what blocked the superb mission of... of.. of... completely nothing. Maybe feeding the big queen? The big queen being miserableness. Yes, that's right.So I replied:


'It's a fine letter after all.'


'Really?'


'It has words, it is printed on paper...'


'Sure. That's the definition of "letter", am I right?'


   I thought about this comment for some seconds. It was just ... contempt... screaming inside of me.


'Well. That's your definition.'








Vitor M. Vívolo 09/09/10

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

"Accentus" e "Esclamazio"

“Accentus” e “Esclamazio”
O corte.. a lâmina
O ‘crescendo’ da aflição
O aborto dos colhões biológicos
Beijo divino do Diabo Vermelho
Calor assassino do Ópio Maldito
E assim que ocorreu
Apostasia foi-lhe concedida
E libertaram-no de sentir felicidade
Sua virtude resumia-se 
no virtuosismo da laringe neurotrasmissora
Um desqualificado do sistema
Nada de carne sangue sêmen, nada
Era o som
Ninguém ouvia
Mas era cacofonia acéfala
Juízes eram ausentes
Pois não há acusações
onde não existem ouvintes
Foi o grito de um cego
Apreciado por surdos
Appoggiaturas intelectuais 
de um grito de ouro
Nas ondas salinas e deturpadas
Mares e Mares de Sal
Sal
Sal, sal, sal, sal
Ouro oxidando-se aos poucos
Baleia o engole
mastiga, defeca
Nada digere
Indestrutível, não-diluível
Jamais solvente
Sal. Sal. Só.
Nadando sobre sob-floreios
Praticamente acreditando em modulações
Não vira nuvem
Não ascende, nunca
Brilha ao luar, brilha
Desembarca na ressaca
Arranha a areia
E se perde
Entre os brilhantes estilhaços de vidro.
Castrato. Castrato.
Anomalia do Ciclo Sem Fim
Bastardo da hipófise social
Fale alto e trinado
No fim, tua arma penetra
Funda, massiva, dolorosa
Mas nada fecunda
Vítor da M. Vívolo 29/08/10 às 01h08 a.m.