Uma linda borboleta monarca no Lírio
Uma gigantesca mosca, de olhos vermelhos e armadura esmeralda pousa sobre ela
domingo, 18 de dezembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Pensando profundamente bem... A Noite é a melhor companhia do mundo. Ela sempre virá. Ela serve de refúgio. Ela serve de tela em branco para a projeção de sonhos. E é para ela que você entrega a alma todas as noites, para que permaneça zelada e intacta até o amanhecer. Adieu.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Manuscrito de Um Louco [trecho], por Charles Dickens
Roubos as palavras de um livro e descrevo um fragmento meu que procuro controlar ultimamente:
" Sim, de um louco! Como essa palavra teria afligido meu coração muito tempo atrás! Como teria despertado o terror que costumava me assolar algumas vezes, lançando o sangue a zunir e formigar pelas minhas veias, até o suor frio de medo estagnar em grandes gotas sobre a minha pele e os meus joelhos baterem um no outro de pavor! Agora, no entanto, eu gosto dela. É uma boa denominação. Apresente-me o monarca cuja carranca zangada foi alguma vez tão temida como o olhar penetrante de um louco - cujo machado e forca foram quase tão infalíveis quanto as mãos fatais de um louco. Rá! Rá! É uma coisa formidável ser louco! Ser espiado como um leão selvagem através das barras de ferro - ranger os dentes e uivar, por toda a longa e calma noite, ao alegre tilintar de uma corrente pesada - e rolar e se enroscar na palha transportado por música tão feroz. Viva o o hospício. Ah! É um lugar fora do comum!
Eu me lembro dos dias em que eu tinha medo de ser louco; quando eu costumava ter sobressaltos durante o sono, cair de joelhos e rezar para ser poupado da maldição da minha raça; quando eu fugia de uma aparência de felicidade e divertimento para me esconder em algum lugar solitário e passava horas cansativas observando a febre que consumiria meu cérebro aumentar. Eu sabia que a loucura estava misturada com meu próprio sangue e com o tutano dos meus ossos! Que uma geração havia falecido sem que a peste aparecesse entre eles e que eu seria o primeiro na qual ela ressuscitaria. (...)"
Manuscrito de Um Louco, de Charles Dickens, tradução da editora L&PM Pocket.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Não é nada, posso te prometer e jurar que meus motivos são absolutamente imbecis e nulos. Eu só penso o quão incrível seria ouvir um elogio quando mais preciso de um. Aquele elogio que é mero vocativo e nunca realmente significou nada quando proferido por ti. Adeus, Bela... Eu dormirei em meus aposentos, sabendo que sou merecedor da maldição.
domingo, 14 de agosto de 2011
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Amy Winehouse - Male Cover - You Know I'm No Good
Meu tributo a minha diva Amy Winehouse. Meu cover de You Know I'm Not Good.
terça-feira, 26 de julho de 2011
domingo, 24 de julho de 2011
Sei lá. A Amy morreu. Eu tô vivo. E ninguém lê isso daqui mesmo.
Fim.
Fim.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Benedictus [Conto]
Não havia absolutamente ninguém nas ruas, mesmo assim… Havia uma terrível sensação de perigo no ar. Eu não conseguia me sentir segura de forma alguma. Minha respiração retumbava dentro de mim e as terríveis imagens ainda maculavam minha calma violentamente. Os olhos, as asas, o sangue quente. Real demais para ser um sonho… Na realidade, tão impossível que nem mesmo minha consciência teria maquinado de forma tão diabólica. Ó, Deus. Será que posso recorrer a você, ainda assim?
Minhas lágrimas eram tão quentes… Eu precisava me recompor. Eu precisava me sentir segura. E quando tudo ao redor parecia derreter em torrentes de agonia, avistei a Igreja. Alta, imponente, emanando a Luz através de suas pequenas janelas. Nunca uma estrutura de pedra pareceu tão humana e convidativa. Respirei profundamente. Caminhei até a grande porta frontal, subindo degraus intermináveis. O céu era escuro, tenebroso, e as nuvens me faziam pensar em espíritos contorcidos… esticando suas mãos tortuosas e cegas em direção à Lua. Bati na porta.
Nenhuma resposta. Ouvi vozes. As vozes do pesadelo. Um violino morria ao longe, chorando. Meus gritos eram ensurdecedores. Mas eu sabia que somente eu era capaz de ouvi-los. Bati novamente. E novamente. E novamente. E novamente. Agonia e extrema agonia. Uma dor vermelha acumulava-se em meus punhos cerrados. Eu sabia que não eram nada comparadas à dor de uma tortura. Eu tinha como saber. Controlei minha respiração e, como prêmio, o postigo da porta se abriu.
- Boa noite.
- Sou eu, Padre. Sou eu. Por toda a misericórdia do mundo, me perdoe por causar tamanho distúrbio a essa hora da noite. Eu preciso entrar.
Sem pergunta alguma, a pequena portinhola se fechou. Minhas esperanças se reviraram em meu estômago. Eu havia sido abandonada? Uma proscrita. Sozinha, deveria buscar conforto em algum outro local. A Morada de Deus não era minha morada. Ó, Céus. Mais lágrimas… Uma faixa de luz bruxuleante me banha finalmente, a porta havia sido aberta. Um som de inaudível conforto escapou por meus lábios. Caminhei.
O Altar estava recoberto de olhos de fogo. Eram as Velas da Vigília. Cada uma daquelas estrelas possuía um desejo, um desejo acorrentado a um pedaço frio de cera. Sua missão era sobreviver e fazer com que aquele algoz cedesse lentamente, até virem-se livres para voltar aos Céus. Quantos corações sangraram seus mais desesperados pedidos ali? Quantas chamas nasceram de chamas antigas, novas missionárias? Quantas lágrimas transformaram-se em línguas de fogo através do poder dos Santos?
Virei-me bruscamente quando a porta foi trancada novamente. Todas as estrelas tremeram com a nota grave da tranca pesada. Despertei de meu devaneio.
- Eu gostaria de saber que Anjo a visitou com alguma mensagem tão urgente que deve ser entregue imediatamente. - sorriu meu amigo.
Suas palavras me atingiram em cheio. Creio que ele foi capaz de perceber isso, pareceu levar as mãos aos lábios buscando recuperar o que havia proferido. Tomou meu braço gentilmente e pediu para que eu me sentasse em um dos largos bancos de madeira.
- Que espécie de Anjo, é exatamente o que me pergunto.
As válvulas de minhas lágrimas cederam novamente e me envergonharam. O rapaz apenas suspirou e pediu para que eu me explicasse de forma mais clara assim que me recuperasse. Eu devia me acalmar. Foi este seu conselho. E após dolorosos minutos em silêncio, naquela semi-escuridão gelada, consegui recobrar uma parcela de minha amarga razão.
- Minha querida irmã, gostaria de um pedaço de pão ou um gole d’água? Me parece muito pálida - e antes mesmo que eu respondesse, levantou-se para buscar o tal repasto.
- Não! - interrompi - Não me deixe aqui sozinha. Sob o olhar de tantos cavaleiros ameaçadores.
Ele observou os Santos que adornavam as paredes e vitrais. Pareceu perplexo e indignado com meu comentário levemente ofensivo. Eu realmente acreditava que seres tão iluminados representariam algo tão vil?
- Muito bem. Estou aqui. Tome minhas mãos, exatamente dessa forma. Você está gelada! Deixe-me procurar esquentá-la com meu toque. Você está a salvo aqui, sabe disso tanto quanto eu. Este não é um local qualquer, é a sua casa, a minha casa, a casa de Deus.
- Receio que Deus não desejaria uma intrusa em sua casa.
- Não existem intrusos para um Amo que recebe a todos com os braços abertos e calorosos.
Outra pausa. Longa. Dolorida.
- Para que eu esteja apto a ajudá-la e confortá-la, necessito saber o que aconteceu.
- Eu tive uma visão, Thaddeus.
- Padre Thaddeus, Rebecca. Por favor.
- Perdão… - suspirei. E ele imediatamente percebeu que não era hora para suas banais regras de comportamento social. Pressionou meus dedos em seu peito, como se pedisse para esquecermos tal observação. Prossegui - A visão mais controversa que já tive em minha vida. A mais sólida e terrível de todas.
- Pelo que pude apreender de suas poucas palavras, um Anjo a visitou desta vez? Um Anjo em pessoa?
- Não apenas um. Vários… - pensei que não conseguiria pronunciar - Anjos...
Taddeus levantou-se, - até agora estava ajoelhado, mantendo nossos olharem em mesma hierarquia - e caminhou até o banco da outra extremidade do grande corredor. Apoiou o peso no mesmo, através dos longos braços, e resmungou preces indecifráveis. Ao terminar, elevou seu olhar para a figura sangrenta de Cristo em destaque no Altar longe de nós. Imprimiu a figura da Cruz em seu corpo com a mão direita. Havia tantos seres alados naquelas paredes. Eu tremia ao olhar cada um deles, minha mente deveria se manter intacta. Se eu permitisse, minha memória a devoraria até saciar a sede de sangue.
Buscava observar a reação dele quando seu olhar sequestrou o meu. Seus olhos estavam trêmulos, brilhavam de forma insana e estranha, a pele havia roubado a cor da porcelana das estatuetas. Ele havia se tornado o Santo da Insanidade, estava em absoluto estado de choque. O que ele via em mim? Era impossível responder.
- Por que me olha desta forma?
- De que forma eu deveria olhá-la? Você foi abençoada, recebeu um presente inestimável. E nem mesmo um fio de cabelo meu duvida disto! Veja seu rosto, suas reações, sua confusão e resignação. É o estado descrito na Bíblia por todos aqueles que receberam a mesma graça.
- Garanto que nenhum deles recebeu a visita que recebi, então… Devo estar me saindo até que bem, de acordo com sua descrição.
- Rebecca, por favor… - respirou, lânguido... - Se já estiver apta para me relatar sua visão, eu...
Bruscamente abdicou de seu pedido, eu o havia forçado a fazê-lo com um estridente ganido. Algo tomava conta de mim, corria em meu corpo, seduzia meus ossos a se chocarem em violentas ondas e espasmos. Lembrei do toque daquelas criaturas, dos dedos quentes, dos sorrisos complacentes, da forma como contorciam minhas impressões. Eu precisava me controlar, eu precisava contar. Eu precisava!
- Não direi que estou apta… Não tenho capacidade para mentir a tal ponto… Mas eu sinto a abstinência de confessar esse sonho à alguém. Eu sou… um doente, sadio a vida toda, agora sedento por morfina… Nunca usufruí de suas propriedades, mas sei quais são e grito por elas nesse instante. Uma confissão. Direi tudo em forma de confissão.
Taddeus assentiu levemente, como um adulto cede a uma criança traumatizada. Ofereceu ajuda para que eu me levantasse. Recusei imediatamente.
- Acha que consegue andar sozinha? - Ele provavelmente se referia a um local apropriado para a minha confissão.
- Duvido que consiga sequer caminhar. Não posso me confessar aqui mesmo, Padre?
Sua cabeça vasculhou o local e nossas companhias: os seres de porcelana. Por fim, pareceu perceber a oferta obscena que havia feito, tamanho sendo meu estado de fraqueza.
- Claro, claro que sim. Estou aqui para ouvi-la, minha filha.
Um riso sardônico abriu caminho dentro de mim e logo morreu ao se libertar. “Minha filha”, tão ridículo. Conforto era o alvo de meus anseios. Eu já havia sido sua “Becky”, sua “quase irmã”, sua confidente… Sua... Bem, e agora… Eu era… “Sua filha”. Mais uma ovelha do rebanho. Mais uma anônima. Mais nada.
- Era tarde já. Todos em casa dormiam e eu me sentia aflita por motivos que não são de suma importância agora… Mamãe havia acendido o fogo na sala de música, onde eu lia… Minha companhia sendo apenas mais uma jovem patética das novelas Brönte… Admito que havia um conforto em pensar que poderia descartar aquela criatura no momento que me fosse conveniente. Se me cansasse dela, rasgaria as páginas, alimentaria o fogo com elas.
- Por que não simplesmente repousar o livro na estante e dar uma chance a algum outro?
Um murmúrio tão caloroso, tão inaudível. Quase não o ouvi. Mas, por tê-lo feito, pude captar que talvez quem não estivesse me ouvindo era ele.
- Parece que você não me conhece tão bem, depois te tanto tempo!, depois que trocou minha companhia pela… - o bom senso pediu para que eu cessasse e prosseguisse. - Desisti da leitura e mergulhei na missão de decifrar o fogo. As figuras, as lendas perdidas naqueles contornos febris. Talvez eu tenha devaneado por uma hora, já que o gongo do relógio me fez perceber que deveria estar dormindo. Não havia um sinal de que Morfeu se aproximava de mim, minhas pálpebras estavam alertas. Eu não sabia bem o que fazer, decidi caminhar até a cozinha e ver se encontrava alguma garrafa de vinho já aberta. Bebericar um pouco de álcool me serviria de canção de ninar.
“ A casa estava em estado de hibernação. Eu ouvia a respiração dos criados nos quartos, meus sapatos de tecido compassavam o ritmo da pequena orquestra de sopro… Uma pobre vela era incumbida de me guiar, batalhando solitária contra o fluxo de sombras que a golpeava a cada degrau que desci. Por um momento, percebi o quanto eu era vulnerável naquela moldura noturna. Era tudo absurdamente disforme sob o manto negro. Tratei de respirar fundo e não dar voz a tais sentimentos. Tarefa esta que não provocou o resultado que eu esperava, já que um trombone rouco foi acionado por uma de nossas mais velhas criadas repentinamente em seu sono. Assustada, quase tropecei no último degrau que encontrava.
“ Venci esta maligna fase de minha missão e ri de mim mesma por ter sido tão tola. Continuei a arrastar meus pés feito lesmas pelos pisos de carpete e madeira até que, finalmente!, encontrei a cozinha. Tateei uma pequena mesa próxima à despensa e encontrei uma taça limpa ao lado do prêmio que eu cobiçava. Uma garrafa de vinho! Pela metade, então ninguém notaria meu assalto. Escorreguei um pouco do néctar em meu vidro e, quando satisfeita o suficiente com a quantidade, tomei minha pobre companheira de luz na mão direita e adentrei outra vez os escombros daquela caverna.
“ Encontrei tantas semelhanças entre minhas crises de medo naquele lugar e a cena em que abandonei meu romance que me senti uma pata de tão tola. Estava esperando ouvir vozes, risos malévolos e incêndios sem causa? Talvez fosse isso. Mas não haveria problema! Eu saberia como resolver estes pequenos escândalos caso acontecessem, estava experiente após ler aquele capítulo. Disso eu tinha certeza. Ri novamente de minhas bobagens. Subi a montanha de escadas, observei calmamente se deveria me prevenir de algum novo compasso de trombones, senti a sensação de que minha aventura havia sido bem sucedida e voltei ao aposento que havia abandonado.
“ A porta entreaberta ofuscou meus olhos por um instante… O vulto de um homem transparecia sobre o fogo. As faíscas da lenha mais lembravam trovões, de tanta fúria. Eu estava inerte. Minha respiração por um instante parou em um engasgo.
“ - Não morra, bela virgem. Não sou motivo para que deixes de viver.
“ Pude ver seu rosto. Olhos castanhos, cabelos em tons de amêndoa e terracota. Não recordo feições… Mas… Ele respirava. Seu peito inflava-se e esvaziava… Ele respirava! O maldito respirava, Thaddeus!
“ - Nefesh.
“ Neste momento, voou até mim. Agarrou me pela jugular e riu em voz alta. Eu gritei, arranhei minha garganta, e nada. Tudo era mudo. Tudo era inútil sob o riso sádico. E os trovões subiram e usurparam cores e contornos do aposento. Maldito! Maldito! Pra onde ele me levou? … Eu não sei… O riso criou um acorde, e depois cacofonia. O vulto tornou-se dois, depois cinco, depois sete. E fui acorrentada por fim.
“ Meus braços foram atados em um tronco desgastado e levemente brilhante. Meus seios foram esmagados na estrutura enquanto minhas mãos esticavam meus ossos em direção ao céu. Eu estava nua. E sentia uma vergonha absolutamente humilhante ao notar aqueles seres me fitando. Eles riam inocentemente. Finalmente compreendi isso. Estavam se divertindo como nunca. E suas asas batiam animadamente, penas se desprendiam e trançavam meus cabelos.
“ Um deles, o mais bem vestido, removeu uma espada da bainha. Disse-me que eu seria um presente. Que eu seria um deles. Cravou o ângulo agudo da arma em minha pele. Minhas fibras foram arrebentadas em linha reta. Meus sulcos saltavam no ar e espatifavam-se de volta. Eu não sei descrever a sensação em meus nervos neste momento. Não existem palavras suficientes. Talvez seja melhor que eu esqueça. Soluços traziam-me a impressão de vômito, havia algo dentro de minhas tripas que cavou caminho por minha garganta. Estava louco para sair, mas não conseguia.
“ Dedos agarraram minhas costelas avidamente. E trancos fizeram com que cada gancho se desprendesse do interior de meu corpo e tomasse forma invertida. Sons secos, estalos, minha mente formigando tão intensamente que evocava a morte.
“ - Regozija-te! Pois tens asas agora. Voa então...”
- BASTA! Basta, Rebecca! Pelo amor de Jesus Cristo! Basta! Cale-se!
Thaddeus desferiu um tapa em meu rosto, perdi meu horizonte e o frio chão beijou minhas têmporas.
Desmanchei em lágrimas… Gritei… Debati-me nas amargas pedras.
- O que se passa com você?! Um sonho destes, uma atitude tão perturbada! Não eram Anjos que a visitaram! Não percebe?
Respirei fundo. As cores ao redor tomaram forma de meras tonalidades. Meus músculos receberam arranhões e arrepios. Eu estava calma. Completa e profundamente embebida na ausência de sentimentos nocivos. A quina de um banco exalando perfume de verniz me proporcionou apoio. Pus me de pé. Proferi entre sussurros e altos volumes:
- Não posso negar que foram Anjos. Pareciam Anjos. Falavam feito Anjos. Suas intenções preenchiam todos os traços de minhas concepções para esta espécie de criatura...
- Suas concepções estão…
- Minhas concepções estão perfeitamente claras agora. Elas não possuem erro algum. As proporções delas, talvez. Não sei dizer se o que vi foi miserável demais comparado ao que deveria ser, ou exacerbado demais e capaz de atravessar os limites que deveriam existir. Mas de forma alguma ouse me dizer que estou louca! Que estou errada! Porque sua razão termina onde o meu campo visual começa. A ladainha que você prega tão cegamente não serve para mim. Sua fé é estúpida e sem embasamento algum necessário para se aplicar à minha vida. Vês o que vejo? Sentes o que sinto? Eu não busco desesperadamente dizer o que é certo e o que é errado em suas linhas de passado, presente e futuro. Quem sou eu para fazer tal coisa!
Silêncio absoluto. Anjos atrás de mim.
- Você os vê agora? Hein? Pode ver? Pode sentir os vapores em sua nuca? Se esta for alucinação de minha fé, ao menos não fiz guerra contra a tua. Não entoei peãs contra teu exército. Meus ideais são meus soldados, minhas esperanças as dificuldades, e minha paciência o objetivo. Abra mão desde livro que escreveram para você! Não vivenciou nada do que está aí! Nada do que se diz digno de pena ou adoração nestes parágrafos que tanto lê em voz alta fez parte das rugas em seu rosto! São meros buracos na terra sendo encharcados por seu desejo voluntário de significado.
- Pare de blasfemar! E controle-se! Em nome de toda a nossa história juntos, ouve o que digo! Espere eu refletir melhor.
- Nasci para esperar pela morte. O que vier além disso é carregado de conseqüências catastróficas.
Um Anjo me entregou uma belíssima faca de obsidiana.
- Não desejo mais conseqüências para quem eu deveria amar por ser meu único recurso.
Em poucos segundos a pedra escura estava úmida. O licor rubro lembrava o cheiro de anis estrelado na primavera. Todos os Anjos ajoelharam, riram-se baixo e fizeram uma pequena prece.
Conserva me Domine quoniam in te speravi.
Deiecta quivis arbore ligna legit.
Vel caeco appareat
Vel caeco appareat
et in sæcula sæculorum
Amen
Vítor da M. Vívolo 31/01/11 - início. 27/07/11 - finalização.
domingo, 12 de junho de 2011
Cento E Sessenta E Dois Dias
Um dia destes resolvi passear pelo cemitério
Manhã fria, de nubladas intenções
Caminhei sem rumo, invejei os mármores e pedras
Ouvi de longe o murmúrio
Uma procissão ocorria no horizonte
Aproximava-se vagarosamente
Um maravilhoso caixão negro, recoberto por manto púrpura sobre mil braços
E o pano voa longe com o tropeço de um
Abaixam-no e todos correm para buscar o tesouro perdido
Por fim meus olhos curiosos buscam ver o conteúdo
Um cadáver apodrecido, cheio de buracos... Um queijo esverdeado e retorcido
E sorria. Tão patético como sorria
Faltavam-lhe dentes, faltavam-lhe músculos e sorria
Chutei a caixa fúnubre... E então li o entalhe sobre a tampa.
"AQUI JAZEM OS AMORES E A ESPERANÇAS DE UM SER QUE PENSOU SORRIR"
Manhã fria, de nubladas intenções
Caminhei sem rumo, invejei os mármores e pedras
Ouvi de longe o murmúrio
Uma procissão ocorria no horizonte
Aproximava-se vagarosamente
Um maravilhoso caixão negro, recoberto por manto púrpura sobre mil braços
E o pano voa longe com o tropeço de um
Abaixam-no e todos correm para buscar o tesouro perdido
Por fim meus olhos curiosos buscam ver o conteúdo
Um cadáver apodrecido, cheio de buracos... Um queijo esverdeado e retorcido
E sorria. Tão patético como sorria
Faltavam-lhe dentes, faltavam-lhe músculos e sorria
Chutei a caixa fúnubre... E então li o entalhe sobre a tampa.
"AQUI JAZEM OS AMORES E A ESPERANÇAS DE UM SER QUE PENSOU SORRIR"
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Sim, eu cometi facebookcídio, twittercídio e orkutcídio.
Não faz sentido tantas conexões e tanta hipocrisia. Vou dar um pouquinho de trabalho pra quem quiser me encher o saco ou mandar indiretas. E quem quiser me encontrar, sempre sabe como.
Carpe diem.
Não faz sentido tantas conexões e tanta hipocrisia. Vou dar um pouquinho de trabalho pra quem quiser me encher o saco ou mandar indiretas. E quem quiser me encontrar, sempre sabe como.
Carpe diem.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Mantenho na garganta meu choro de carpideira. Nada morreu, por que então choro?
[Poesia a caminho...... eu acho.]
[Poesia a caminho...... eu acho.]
domingo, 1 de maio de 2011
Quando um anarquista se prostra diante da morte, será seu caráter e não a quem ele jurou ódio que será julgado.
Sempre existirá um babaca achando que a internet dá super poderes. Que pena.
Sempre existirá um babaca achando que a internet dá super poderes. Que pena.
domingo, 10 de abril de 2011
Perfume
Perfume
Foi teu perfume
Ele me fez levantar do estado de coma
Deitado, agarrei-me a almofada
Cravei meu rosto em cada centímetro da fibra
Era você… Você entre meus braços
Sorri, suspirei, acariciei o tecido
Lágrimas feriram meus olhos
A Saudade mordeu meu peito e puxou meus músculos
Mnemosine estourou sua placenta delicada
Agulhas salpicaram minha pele… Minha espinha… Minha nuca…
Traguei outra dose tua
Inflei meus pulmões com teus beijos
Teu rosto no meu…
Deslizei em busca de teu corpo…
Nada encontrei.
Você entre meus braços…
Tão longe…
Meus braços tão curtos
Meu sofrimento tão grande
Se Deus me der asas, decolo
Vôo para o mais distante reino…
Não.
Vôo para o mais próximo de teus lábios
Minhas asas serão os braços que faltam para te envolver mais perto
Minha saudade, o cordeiro para as chamas de teu toque
Cada pulso meu bombeia cor
Ao monumento que criei em tua homenagem
Acendi um cigarro, quis espantar tua fragrância
As almas do Tártaro levitavam no ar
Torcidas, gritavam indignadas
Teu nome, teu nome, teu nome…
Provoquei a eutanásia da chama em meu Uísque
Tu, meu caro, és minha nova nicotina e licor
Vítor da M. Vívolo 10/04/11 6h25 p.m.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Roubando palavras que me são roubadas.
Possuo um hábito altamente irritante de me identificar com trechos de livro e sentir que eles possuem a obrigação de dar voz a explicações de minha personalidade que não conseguem encontrar formas de se expressar em palavras.
Ultimamente encontrei este:
"Sempre sentia inveja de gente normal, de gente como Roberto, sem sensibilidades excessivas, sem nervosismos, capaz de viver no presente, de absorver-se no quotidianismo da vida. Sentia uma atração especial por essas naturezas práticas, possuidoras de um dom tão simples e tão comum, mas que lhe faltava. Com ela, a imaginação estava sempre a se interpor diante da vida real, a afastar dos seus sentidos o momento presente, criando uma sombra, ou um receio, ou um remorso."
Pensamentos de Marina em "A Sucessora" por Carolina Nabuco.
Ultimamente encontrei este:
"Sempre sentia inveja de gente normal, de gente como Roberto, sem sensibilidades excessivas, sem nervosismos, capaz de viver no presente, de absorver-se no quotidianismo da vida. Sentia uma atração especial por essas naturezas práticas, possuidoras de um dom tão simples e tão comum, mas que lhe faltava. Com ela, a imaginação estava sempre a se interpor diante da vida real, a afastar dos seus sentidos o momento presente, criando uma sombra, ou um receio, ou um remorso."
Pensamentos de Marina em "A Sucessora" por Carolina Nabuco.
terça-feira, 29 de março de 2011
Pequena Nota.
Eu quase literalmente chorei agora... Comprei um exemplar de "Rebecca - A Mulher Inesquecível" num sebo e encontrei pelo livro vários recados amorosos pra antiga dona. Na contra capa está escrito:
"Esther,
Ofereço-te este livro para que passes uns momentos agradáveis ao lê-lo. Sempre teu, Jether.
São Paulo 25 de Julho de 1942" ♥
"Esther,
Ofereço-te este livro para que passes uns momentos agradáveis ao lê-lo. Sempre teu, Jether.
São Paulo 25 de Julho de 1942" ♥
quinta-feira, 24 de março de 2011
Eclipse
... Eu precisava escrever esse soneto. Não existe inspiração maior no momento. Espero que gostem e que eu tenha sido fiel ao Sol e a Lua.
Eclipse
para minha Lua
Sob os teus lábios deixo os sinos que nutri
Desolados girassóis despertam as Damas
Tanto invejo as raízes que as amarram à grama
Só assim que caberia a mim contemplar a ti
De que adianta tanta vida em pobre sorte
Quando minhas chamas ardem fora o teu alcance?
Caso eu desista e enfim já queira a própria morte
Destruo aqueles livres, candidatos a amantes
Esta manhã ouvi dos seres tal alegria
Revelaram-me que estarei em sua companhia
As metades, em paixão, confundirão os dias
Envolta em meus braços, a afago finalmente
E beijamo-nos num circundo anel carente
Cegando quem não apreende o que o coração sente
Vítor da M. Vívolo 24/03/11
sexta-feira, 18 de março de 2011
Pinna et Dolor
Eu consultei um óraculo. E de meus lábios secos nada saía... Mas a língua de meu Anjo despejava o néctar que era a transsubstanciação de meu sangue.
Pena
A Pena continua seu processo
e nele sua fragilidade e reais sentimentos
voltam a aparecer.
E a Pena aprende algo
Ela não é tão indiferente
a certas coisas como achava
Contrariando sua indiferença
Existe algo na penumbra, algo
na noite que esconde a realidade do dia
As vezes medo, as vezes total repulsa
E na maior parte do tempo a penumbra
Mescla ambos em um borrão.
A Pena aprendeu a evitar certas
Experiencias de vida
Com repulsa e desdém
Quase como se vivê-las
Fosse o fim de seu reinado
Mas agora a Pena está consciente disso
Essa repulsão será trabalhada
Pois no fundo a Pena sabe
Que não há a menor necessidade de se evitar
Quaisquer experiências passadas que apenas
Merecem pena.
Douglas Bettioli 18/03/11
terça-feira, 8 de março de 2011
Hiato
Sei que estou devendo um conto faz um século... Mas prometo que logo será postado. Ele acabou se tornando mais longo que o planejado, e estou pesquisando teologia e Santo Tomás de Aquino para sua base... A demora toda se deve a essa pesquisa. Juro.
Enquanto isso, aí vai um desenho meu. Espero que gostem, meus anjos.
Enquanto isso, aí vai um desenho meu. Espero que gostem, meus anjos.
O Scanner prejudicou um pouco as sombras... mas anyway... (cliquem para o tamanho real)
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Ok. Tá todo mundo sentado?
Olá. Meu nome é Vítor e eu estou há 15 minutos sem reclamar. Não, sérião. QUINZE-MINUTOS. Vocês tem noção da magnitude disso? Tipos, em algum lugar do mundo estão sacrificando bebês panda pra compensar o déficit de pessimismo que eu estou deixando no Universo. Mas pergunta se eu ligo.
Eu não consigo dormir. Eu deveria estar lá, na minha cama, tendo meus pesadelos diários. Me assustando com os carros gritando na rua, com as cortinas balançando e com todas as minhas tarefas que estão por vir. Mas... vejam só, faltam duas horas e trinta e cinco minutos para eu supostamente acordar e dar início a uma nova página nessa minha vida.
Não to falando de primeiro dia de escola. De saber em que sala estou, se estou perto dos amiguinhos do ano passado, se o professor X ou Y vai ser aquela merda de aturar. Nada disso. Eu não estou esperando absolutamente nada. Não sei de salas, de colegas, de turmas, se professores são chatos ou bacanas. Mas pergunta se eu ligo.
Cara. Veja bem. Tudo pode dar errado. Tudo pode dar certo. Tudo deu errado BASTANTE no ano passado. E... questão de estatística sabe? Sem falar que minha nova filosofia se baseia em sábias palavras de uma música que eu ouvia outro dia, do Jack The Ripper The Musical, "it can't be worse than starving, what a life!".... Fiz umas adaptações básicas e agora pra mim é "it can't be worse than love, what a life!".
Tô errado?
Existe algo PIOR do que ... sei lá. Amar alguém? Se apaixonar e o cacete? Poiszé.
E, olha. Já deu disso. De chorar, de querer estar acompanhado. Eu nasci sozinho, naturalmente posso ficar sozinho numa boa. Fiquei sozinho dentro de uma barriga por sete meses (no meu caso sete, no de vocês nove?) , sem ter idéia do que se passava lá fora. E assim será meu famigerado coração. Sozinho, sem ter idéia do que o espera lá fora. Sem ser atingido. O incunábulo da resistência.
Não pode ser pior que isso.
.... ok. Poder até pode.
Mas pergunta se eu ligo.
Olá. Meu nome é Vítor e eu estou há 15 minutos sem reclamar. Não, sérião. QUINZE-MINUTOS. Vocês tem noção da magnitude disso? Tipos, em algum lugar do mundo estão sacrificando bebês panda pra compensar o déficit de pessimismo que eu estou deixando no Universo. Mas pergunta se eu ligo.
Eu não consigo dormir. Eu deveria estar lá, na minha cama, tendo meus pesadelos diários. Me assustando com os carros gritando na rua, com as cortinas balançando e com todas as minhas tarefas que estão por vir. Mas... vejam só, faltam duas horas e trinta e cinco minutos para eu supostamente acordar e dar início a uma nova página nessa minha vida.
Não to falando de primeiro dia de escola. De saber em que sala estou, se estou perto dos amiguinhos do ano passado, se o professor X ou Y vai ser aquela merda de aturar. Nada disso. Eu não estou esperando absolutamente nada. Não sei de salas, de colegas, de turmas, se professores são chatos ou bacanas. Mas pergunta se eu ligo.
Cara. Veja bem. Tudo pode dar errado. Tudo pode dar certo. Tudo deu errado BASTANTE no ano passado. E... questão de estatística sabe? Sem falar que minha nova filosofia se baseia em sábias palavras de uma música que eu ouvia outro dia, do Jack The Ripper The Musical, "it can't be worse than starving, what a life!".... Fiz umas adaptações básicas e agora pra mim é "it can't be worse than love, what a life!".
Tô errado?
Existe algo PIOR do que ... sei lá. Amar alguém? Se apaixonar e o cacete? Poiszé.
E, olha. Já deu disso. De chorar, de querer estar acompanhado. Eu nasci sozinho, naturalmente posso ficar sozinho numa boa. Fiquei sozinho dentro de uma barriga por sete meses (no meu caso sete, no de vocês nove?) , sem ter idéia do que se passava lá fora. E assim será meu famigerado coração. Sozinho, sem ter idéia do que o espera lá fora. Sem ser atingido. O incunábulo da resistência.
Não pode ser pior que isso.
.... ok. Poder até pode.
Mas pergunta se eu ligo.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Não mentimos para proteger os outros. Mentimos para nos protegermos do remorso.
Conto novo em breve.
Boa noite.
Conto novo em breve.
Boa noite.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Karkinos
Câncer a gente remove assim. De uma vez e para sempre.
Nunca mais meu sistema será frágil à futilidade, imbecilidade e hipocrisia.
Nunca mais.
O passado é algo que me perturba. E eu descobri o motivo. É a voz da minha consciência.
Nunca mais meu sistema será frágil à futilidade, imbecilidade e hipocrisia.
Nunca mais.
O passado é algo que me perturba. E eu descobri o motivo. É a voz da minha consciência.
sábado, 15 de janeiro de 2011
Homini Vorax (Conto)
Homini Vorax
Por alguns segundos mantive-me parada na porta daquela horrível moradia demoníaca. Meus lábios estavam gelados e o sangue escapava de minhas bochechas, eu desejava me entregar ao pranto o mais rápido possível. Mas não havia tempo para isso. Não.
Toquei o portão enferrujado e limoso, uma onda de asco percorreu minha espinha. Ainda podia ouvir suas palavras. Ainda podia ver seu rosto desviando do meu. Ainda podia ver aquela sombra tenebrosa atrás dele, sorrindo para mim, absolutamente crente de que era invisível a todos. Você traiu seu Deus, minha jovem. Você traiu aquele que é Dono do seu Corpo e Sangue. Eu não podia sentir aquilo tudo, eu sabia disso. Mas meus caprichos eram baseados em minha crença pela pureza dos sentimentos humanos. Fiz algum mal em crer nisso? Meu Pai, em nome de sua misericórdia, me ouça. Me diga que está ouvindo, faça-me saber de Sua existência.
As engrenagens do portão gritaram quando eu o empurrei. Os ventos trinavam suas lamúrias em meus ouvidos, baforando neblina em meus olhos que lacrimejavam. Levantei meu olhar aos Céus e tudo o que pude ver foram os Inquisidores de Pedra acima das lápides. Anjos, Cruzes, Coroas, Marias e Cristos retorcidos em pura agonia. Fiquei sem fôlego. Eles sabiam. Todos eles. Ao longe, uma pequena gargalhada morreu em um pigarro. Eu não estava só, o coveiro ainda estava em seu turno. Tudo tinha que ser feito rapidamente.
Olhei para meu vestido sujo de sangue. As pérolas e bordados tingidos pelo pecado. O que eu fiz? Se você existe, meu Criador, faça-me compreender. Meus ombros sucumbiram ao peso de minha consciência, e caí de joelhos. Lágrimas lavavam meu rosto, e faziam as manchas rubras que já haviam secado, reviverem. Sentia vontade de arrebentar meus cabelos, de destruir meu vestido, e acima de tudo, de vomitar. Minha maior vontade era ser Ofélia das lágrimas que chorava. Observava minha mãos, sob as unhas existia uma crosta de sangue pisado e terra pútrida.
Um pequeno gato cruzou meu caminho, indiferente à minha dor. Sentou-se sobre os degraus de um túmulo gigantesco de pedra, encarando-me impiedosamente. Era uma Esfinge dos Infernos. Ele veio me buscar. É ele. Eu sei que é. Tentei em vão repetir o quanto estava arrependida, expliquei o quanto minha vida corria perigo nas mãos daquele momento. Eu não era nem um pouco diferente da vontade Dele. Não era! Não é possível matar em Seu nome? Remover uma vida para salvar tantas outras? Aquilo não podia ser escolha minha?
O diabrete felino manteve-se em posição. Limpei as lágrimas de meu rosto e pude observá-lo melhor. Uma ferida estava aberta em suas costelas, e dentro dela algo se mexia. Eram pequenos pedaços de vida, dançando naquela cratera orgânica. O animal parecia não se importar e continuou a condenar-me. O que eram aquelas coisas asquerosas vivendo dentro dele?
- Homini Vorax. - disse uma voz rouca ao pé de meu ouvido.
Virei-me assustada, pronta para empurrar aquela sombra para longe de mim se preciso. Uma mão velha e enrugada segurou meu braço, eu podia ver os traços da morte sob a pele daquele ser. O pequeno idoso sorriu, tentando confortar meu desespero. Meus olhos fixaram-se na pá amassada que ele carregava sobre o ombro. Aquela era a ajuda que eu precisava. Um coveiro experiente e pronto a engolir qualquer segredo em troca de algumas moedas ou anéis caros.
- São as moscas. O bichano se machucou numa briga e um pedaço da pele foi arrancado. Eu não acho que ele tenha se importado, e assim virou comida disso aí.
- Ele não sente dor?
- Não sei. É impossível dizermos o que aqueles que não tem voz sentem. Mas não deve ser nada agradável, as larvas mordem o coitado o tempo inteiro.
O protagonista de nossa reflexão decidiu levantar-se e se aproximar. A cada passo eu podia entender melhor o que o velho havia dito. Um rombo estava aberto, pigmentado por cores avermelhadas, pretas e amareladas. Havia pus escapando por pequenos orifícios e vermes pulsavam naquela gama de cores. Eram larvas de mosca, rascando seus corpos gordos e anelados dentre os pêlos. Algumas caiam conforme pegadas mais fortes eram dadas, e ficavam agonizando na terra, sedentas por sangue.
O olhar felino não se desviava do invisível a sua frente. Gostaria de poder entender o que ele enxergava. Então fui golpeada por seu olhar âmbar, após um longo bocejo. Os dentes afiados me causaram desconforto imediato. Provavelmente um pequeno grito escapou de meus lábios trêmulos, já que o velho ria e tossia escandalosamente enquanto me fitava. O terço que eu carregava em minha mão esquerda se espatifou no chão. E para minha surpresa, o gato mordeu o Corpo de Cristo e fugiu com ele em sua boca.
Este era meu sinal. Só então compreendi. Aquilo tudo nada mais era do que a explicação para meu pesadelo. Minha Razão havia sido mutilada por aquele impulso odioso. Minha razão era a o ninho para as larvas. O vazio que mantive aberto e regado de sangue foi preenchido por pústulas de Insanidade. E as larvas que brotavam vinham de ovos frágeis e traiçoeiros implantados por minha Fé. Eu estava sendo consumida, aos poucos. Eu era a hospedeira definitiva.
- Eu sei porquê você está aqui, mocinha. - Os olhos avermelhados e mortos fixaram-se no sangue em minhas vestes. - E eu posso ajudá-la.
- Não quero que me pergunte absolutamente nada. Eu quero que me obedeça apenas.
Fui motejada por um gesto indecente de reverência e apelidada de ‘Majestade’ enquanto ele concordava com o plano. Eu olhei para a pá novamente e contive meus piores pensamentos. Disse que o corpo estava apoiado nos muros de pedra, ao lado do portão. Ele precisaria me ajudar. Estiquei meus dedos sob a luz da lua e esclareci que ele poderia ter qualquer uma das pedras que abraçavam meus ossos trêmulos naquele momento. Ele olhou para mim, coçou a barba e riu novamente, em escárnio.
- Eu tenho um saco de moedas junto ao corpo. Nos bolsos do casaco do homem morto.
- E a prostituta com quem ele estava? Onde está? Eu adoraria ganhá-la também.
- Não há prostituta alguma, agora cale-se e me ajude. Sem perguntas.
- Que pena. Eu não me importaria em ter uma mulher bonita por aqui.
Naquele instante o encarei. Percebi que o havia assustado.
- Não foi o que eu quis dizer, Majestade. - Um pigarro seguido de um cuspe no chão. - Eu prefiro mulheres bonitas que não reclamem e nem gritem. O problema é a que as que tenho por aqui - Fez um largo gesto englobando as lápides - estão todas passadas do ponto. Fica difícil foder um monte de pele seca depois de um tempo. Eu queria algo mais fresco. … Mas que não esteja a fim de me dar trabalho, você entendeu.
Meu estômago girou em um nó, senti um ardor subindo pela garganta. O engoli. Não havia tempo. Não havia tempo. Calei-me e pisei em frente, indicando para que o velho me seguisse. Podia ouvir seus passos arrastados atrás de mim.
Chegamos ao muro de pedra e observei meu trabalho imprudente apoiado na parede. Ele estava da mesma forma que eu o havia deixado: sentado, com a cabeça pendendo para o lado. Tudo isso o velho pôde supor, já que o corpo em si estava coberto por um manto de veludo negro. Caminhamos até aquele embrulho filho de uma puta e dividimos seu peso. Meu ajudante fez praticamente todo o trabalho, e me senti grata a ele.
Adentramos novamente e o tombamos sobre a terra.
- Daqui pra frente pode deixar que eu continuo, querida.
- Os anéis. Escolha.
Estendi minha mão e fechei os olhos. O toque daqueles dedos gosmentos me trouxeram a memória da briga toda de algumas horas atrás. Ele fez suas escolhas. Minhas mãos estavam completamente nuas agora. Abri meus olhos apenas para encontrar o serviço já sendo feito. O corpo estava sendo arrastado pelos braços até algum local mais remoto.
Mantive-me em pé, parada, observando meu pesadelo terminar. Não sabia se o que sentia era alívio. Ao menos era algo muito próximo. O suficiente para que eu suspirasse e sentisse minha respiração em legato outra vez. Então senti uma pressão em meu vestido. O Gato doente estava se esfregando em minhas vestes. As larvas grudavam na renda manchada. Criaturinhas malditas. Gato nojento. Chutei o animal com toda a força e ouvi sua dor.
O homem virou-se, alarmado, e riu da cena. A briga não havia terminado. Eu havia irritado aquele vaso de pestilência e pêlos. Em movimentos rápidos, suas garras se cravaram em minhas pernas. Puxavam e rasgavam as anáguas. Ódio pulsava em minhas veias.
- Eu te ajudo a tirar esse bicho daí.
Aquele monte de carne seca voltou para perto de mim com a maldita pá. Ele fazia barulhos altos mas a valente fera não sucumbiu. Não havia tempo. Não havia tempo. Peguei a pá da mão do homem. Não havia mais tempo! Um forte golpe metálico tiniu misturado a um gemido estridente. Soltei a pá.
O crânio afundado sangrava, as larvas dançavam, o velho tossia. Eu estava libertada finalmente. Então vi a sombra negra. A mesma sombra negra da hora em que a vida escapou do corpo em meu primeiro assassinato da noite. Ela estava ao longe, na rua, de braços cruzados. Sorria. Perguntei-me que tipo de proposta o Demônio teria para mim.
Vitor da M. Vívolo 15/01/11 às 3h44 da manhã.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Ofélia
Minha maior vontade é ser Ofélia das lágrimas que choro.
(Ps: Logo mais um conto será postado.)
(Ps: Logo mais um conto será postado.)
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Pétalas
Poucas coisas são tão constantes na minha vida quanto o sentimento de solidão.
Não digo total solidão, como se o mundo fosse uma tortura diária. Não. Mas aquela sensação estranha de ser 'filho único' no mundo. Um vaso sem par. Uma panela sem tampa. Faz sentido?
Inevitavelmente, é cada vez mais engraçado me ver acostumado a esta condição. Nasci sozinho, posso muito bem morrer sozinho. E isso não me faz ter que abdicar de meus amigos e poucos companheiros que conquistei ao longo desses dezoito anos. Assim, talvez eu não sirva para namorado. Para relacionamentos. Para nada que tenha alguma conexão com amor cúmplice...
Na realidade, nenhum ser consegue viver só. Se necessário, criam companhia. A castidade religiosa por si só não é submissa à existência de Deus? Mesmo em completa solidão, Padres se agarram na crença em alguém que os acompanha.
Bem, eu posso estar errado. Enquanto isso, sou Orfeu e Eurídice. Eurídice sendo minha sanidade. Se eu olhar para trás, pode ser que desista de vez.
Mas, sinceramente? Eu duvido que desista de sobreviver por um motivo tão besta. Eu sento e espero uma bela alma me libertar da Maldição da Rosa, enquanto ainda existem pétalas que não beijaram o chão.
Não digo total solidão, como se o mundo fosse uma tortura diária. Não. Mas aquela sensação estranha de ser 'filho único' no mundo. Um vaso sem par. Uma panela sem tampa. Faz sentido?
Inevitavelmente, é cada vez mais engraçado me ver acostumado a esta condição. Nasci sozinho, posso muito bem morrer sozinho. E isso não me faz ter que abdicar de meus amigos e poucos companheiros que conquistei ao longo desses dezoito anos. Assim, talvez eu não sirva para namorado. Para relacionamentos. Para nada que tenha alguma conexão com amor cúmplice...
Na realidade, nenhum ser consegue viver só. Se necessário, criam companhia. A castidade religiosa por si só não é submissa à existência de Deus? Mesmo em completa solidão, Padres se agarram na crença em alguém que os acompanha.
Bem, eu posso estar errado. Enquanto isso, sou Orfeu e Eurídice. Eurídice sendo minha sanidade. Se eu olhar para trás, pode ser que desista de vez.
Mas, sinceramente? Eu duvido que desista de sobreviver por um motivo tão besta. Eu sento e espero uma bela alma me libertar da Maldição da Rosa, enquanto ainda existem pétalas que não beijaram o chão.
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