Não havia absolutamente ninguém nas ruas, mesmo assim… Havia uma terrível sensação de perigo no ar. Eu não conseguia me sentir segura de forma alguma. Minha respiração retumbava dentro de mim e as terríveis imagens ainda maculavam minha calma violentamente. Os olhos, as asas, o sangue quente. Real demais para ser um sonho… Na realidade, tão impossível que nem mesmo minha consciência teria maquinado de forma tão diabólica. Ó, Deus. Será que posso recorrer a você, ainda assim?
Minhas lágrimas eram tão quentes… Eu precisava me recompor. Eu precisava me sentir segura. E quando tudo ao redor parecia derreter em torrentes de agonia, avistei a Igreja. Alta, imponente, emanando a Luz através de suas pequenas janelas. Nunca uma estrutura de pedra pareceu tão humana e convidativa. Respirei profundamente. Caminhei até a grande porta frontal, subindo degraus intermináveis. O céu era escuro, tenebroso, e as nuvens me faziam pensar em espíritos contorcidos… esticando suas mãos tortuosas e cegas em direção à Lua. Bati na porta.
Nenhuma resposta. Ouvi vozes. As vozes do pesadelo. Um violino morria ao longe, chorando. Meus gritos eram ensurdecedores. Mas eu sabia que somente eu era capaz de ouvi-los. Bati novamente. E novamente. E novamente. E novamente. Agonia e extrema agonia. Uma dor vermelha acumulava-se em meus punhos cerrados. Eu sabia que não eram nada comparadas à dor de uma tortura. Eu tinha como saber. Controlei minha respiração e, como prêmio, o postigo da porta se abriu.
- Boa noite.
- Sou eu, Padre. Sou eu. Por toda a misericórdia do mundo, me perdoe por causar tamanho distúrbio a essa hora da noite. Eu preciso entrar.
Sem pergunta alguma, a pequena portinhola se fechou. Minhas esperanças se reviraram em meu estômago. Eu havia sido abandonada? Uma proscrita. Sozinha, deveria buscar conforto em algum outro local. A Morada de Deus não era minha morada. Ó, Céus. Mais lágrimas… Uma faixa de luz bruxuleante me banha finalmente, a porta havia sido aberta. Um som de inaudível conforto escapou por meus lábios. Caminhei.
O Altar estava recoberto de olhos de fogo. Eram as Velas da Vigília. Cada uma daquelas estrelas possuía um desejo, um desejo acorrentado a um pedaço frio de cera. Sua missão era sobreviver e fazer com que aquele algoz cedesse lentamente, até virem-se livres para voltar aos Céus. Quantos corações sangraram seus mais desesperados pedidos ali? Quantas chamas nasceram de chamas antigas, novas missionárias? Quantas lágrimas transformaram-se em línguas de fogo através do poder dos Santos?
Virei-me bruscamente quando a porta foi trancada novamente. Todas as estrelas tremeram com a nota grave da tranca pesada. Despertei de meu devaneio.
- Eu gostaria de saber que Anjo a visitou com alguma mensagem tão urgente que deve ser entregue imediatamente. - sorriu meu amigo.
Suas palavras me atingiram em cheio. Creio que ele foi capaz de perceber isso, pareceu levar as mãos aos lábios buscando recuperar o que havia proferido. Tomou meu braço gentilmente e pediu para que eu me sentasse em um dos largos bancos de madeira.
- Que espécie de Anjo, é exatamente o que me pergunto.
As válvulas de minhas lágrimas cederam novamente e me envergonharam. O rapaz apenas suspirou e pediu para que eu me explicasse de forma mais clara assim que me recuperasse. Eu devia me acalmar. Foi este seu conselho. E após dolorosos minutos em silêncio, naquela semi-escuridão gelada, consegui recobrar uma parcela de minha amarga razão.
- Minha querida irmã, gostaria de um pedaço de pão ou um gole d’água? Me parece muito pálida - e antes mesmo que eu respondesse, levantou-se para buscar o tal repasto.
- Não! - interrompi - Não me deixe aqui sozinha. Sob o olhar de tantos cavaleiros ameaçadores.
Ele observou os Santos que adornavam as paredes e vitrais. Pareceu perplexo e indignado com meu comentário levemente ofensivo. Eu realmente acreditava que seres tão iluminados representariam algo tão vil?
- Muito bem. Estou aqui. Tome minhas mãos, exatamente dessa forma. Você está gelada! Deixe-me procurar esquentá-la com meu toque. Você está a salvo aqui, sabe disso tanto quanto eu. Este não é um local qualquer, é a sua casa, a minha casa, a casa de Deus.
- Receio que Deus não desejaria uma intrusa em sua casa.
- Não existem intrusos para um Amo que recebe a todos com os braços abertos e calorosos.
Outra pausa. Longa. Dolorida.
- Para que eu esteja apto a ajudá-la e confortá-la, necessito saber o que aconteceu.
- Eu tive uma visão, Thaddeus.
- Padre Thaddeus, Rebecca. Por favor.
- Perdão… - suspirei. E ele imediatamente percebeu que não era hora para suas banais regras de comportamento social. Pressionou meus dedos em seu peito, como se pedisse para esquecermos tal observação. Prossegui - A visão mais controversa que já tive em minha vida. A mais sólida e terrível de todas.
- Pelo que pude apreender de suas poucas palavras, um Anjo a visitou desta vez? Um Anjo em pessoa?
- Não apenas um. Vários… - pensei que não conseguiria pronunciar - Anjos...
Taddeus levantou-se, - até agora estava ajoelhado, mantendo nossos olharem em mesma hierarquia - e caminhou até o banco da outra extremidade do grande corredor. Apoiou o peso no mesmo, através dos longos braços, e resmungou preces indecifráveis. Ao terminar, elevou seu olhar para a figura sangrenta de Cristo em destaque no Altar longe de nós. Imprimiu a figura da Cruz em seu corpo com a mão direita. Havia tantos seres alados naquelas paredes. Eu tremia ao olhar cada um deles, minha mente deveria se manter intacta. Se eu permitisse, minha memória a devoraria até saciar a sede de sangue.
Buscava observar a reação dele quando seu olhar sequestrou o meu. Seus olhos estavam trêmulos, brilhavam de forma insana e estranha, a pele havia roubado a cor da porcelana das estatuetas. Ele havia se tornado o Santo da Insanidade, estava em absoluto estado de choque. O que ele via em mim? Era impossível responder.
- Por que me olha desta forma?
- De que forma eu deveria olhá-la? Você foi abençoada, recebeu um presente inestimável. E nem mesmo um fio de cabelo meu duvida disto! Veja seu rosto, suas reações, sua confusão e resignação. É o estado descrito na Bíblia por todos aqueles que receberam a mesma graça.
- Garanto que nenhum deles recebeu a visita que recebi, então… Devo estar me saindo até que bem, de acordo com sua descrição.
- Rebecca, por favor… - respirou, lânguido... - Se já estiver apta para me relatar sua visão, eu...
Bruscamente abdicou de seu pedido, eu o havia forçado a fazê-lo com um estridente ganido. Algo tomava conta de mim, corria em meu corpo, seduzia meus ossos a se chocarem em violentas ondas e espasmos. Lembrei do toque daquelas criaturas, dos dedos quentes, dos sorrisos complacentes, da forma como contorciam minhas impressões. Eu precisava me controlar, eu precisava contar. Eu precisava!
- Não direi que estou apta… Não tenho capacidade para mentir a tal ponto… Mas eu sinto a abstinência de confessar esse sonho à alguém. Eu sou… um doente, sadio a vida toda, agora sedento por morfina… Nunca usufruí de suas propriedades, mas sei quais são e grito por elas nesse instante. Uma confissão. Direi tudo em forma de confissão.
Taddeus assentiu levemente, como um adulto cede a uma criança traumatizada. Ofereceu ajuda para que eu me levantasse. Recusei imediatamente.
- Acha que consegue andar sozinha? - Ele provavelmente se referia a um local apropriado para a minha confissão.
- Duvido que consiga sequer caminhar. Não posso me confessar aqui mesmo, Padre?
Sua cabeça vasculhou o local e nossas companhias: os seres de porcelana. Por fim, pareceu perceber a oferta obscena que havia feito, tamanho sendo meu estado de fraqueza.
- Claro, claro que sim. Estou aqui para ouvi-la, minha filha.
Um riso sardônico abriu caminho dentro de mim e logo morreu ao se libertar. “Minha filha”, tão ridículo. Conforto era o alvo de meus anseios. Eu já havia sido sua “Becky”, sua “quase irmã”, sua confidente… Sua... Bem, e agora… Eu era… “Sua filha”. Mais uma ovelha do rebanho. Mais uma anônima. Mais nada.
- Era tarde já. Todos em casa dormiam e eu me sentia aflita por motivos que não são de suma importância agora… Mamãe havia acendido o fogo na sala de música, onde eu lia… Minha companhia sendo apenas mais uma jovem patética das novelas Brönte… Admito que havia um conforto em pensar que poderia descartar aquela criatura no momento que me fosse conveniente. Se me cansasse dela, rasgaria as páginas, alimentaria o fogo com elas.
- Por que não simplesmente repousar o livro na estante e dar uma chance a algum outro?
Um murmúrio tão caloroso, tão inaudível. Quase não o ouvi. Mas, por tê-lo feito, pude captar que talvez quem não estivesse me ouvindo era ele.
- Parece que você não me conhece tão bem, depois te tanto tempo!, depois que trocou minha companhia pela… - o bom senso pediu para que eu cessasse e prosseguisse. - Desisti da leitura e mergulhei na missão de decifrar o fogo. As figuras, as lendas perdidas naqueles contornos febris. Talvez eu tenha devaneado por uma hora, já que o gongo do relógio me fez perceber que deveria estar dormindo. Não havia um sinal de que Morfeu se aproximava de mim, minhas pálpebras estavam alertas. Eu não sabia bem o que fazer, decidi caminhar até a cozinha e ver se encontrava alguma garrafa de vinho já aberta. Bebericar um pouco de álcool me serviria de canção de ninar.
“ A casa estava em estado de hibernação. Eu ouvia a respiração dos criados nos quartos, meus sapatos de tecido compassavam o ritmo da pequena orquestra de sopro… Uma pobre vela era incumbida de me guiar, batalhando solitária contra o fluxo de sombras que a golpeava a cada degrau que desci. Por um momento, percebi o quanto eu era vulnerável naquela moldura noturna. Era tudo absurdamente disforme sob o manto negro. Tratei de respirar fundo e não dar voz a tais sentimentos. Tarefa esta que não provocou o resultado que eu esperava, já que um trombone rouco foi acionado por uma de nossas mais velhas criadas repentinamente em seu sono. Assustada, quase tropecei no último degrau que encontrava.
“ Venci esta maligna fase de minha missão e ri de mim mesma por ter sido tão tola. Continuei a arrastar meus pés feito lesmas pelos pisos de carpete e madeira até que, finalmente!, encontrei a cozinha. Tateei uma pequena mesa próxima à despensa e encontrei uma taça limpa ao lado do prêmio que eu cobiçava. Uma garrafa de vinho! Pela metade, então ninguém notaria meu assalto. Escorreguei um pouco do néctar em meu vidro e, quando satisfeita o suficiente com a quantidade, tomei minha pobre companheira de luz na mão direita e adentrei outra vez os escombros daquela caverna.
“ Encontrei tantas semelhanças entre minhas crises de medo naquele lugar e a cena em que abandonei meu romance que me senti uma pata de tão tola. Estava esperando ouvir vozes, risos malévolos e incêndios sem causa? Talvez fosse isso. Mas não haveria problema! Eu saberia como resolver estes pequenos escândalos caso acontecessem, estava experiente após ler aquele capítulo. Disso eu tinha certeza. Ri novamente de minhas bobagens. Subi a montanha de escadas, observei calmamente se deveria me prevenir de algum novo compasso de trombones, senti a sensação de que minha aventura havia sido bem sucedida e voltei ao aposento que havia abandonado.
“ A porta entreaberta ofuscou meus olhos por um instante… O vulto de um homem transparecia sobre o fogo. As faíscas da lenha mais lembravam trovões, de tanta fúria. Eu estava inerte. Minha respiração por um instante parou em um engasgo.
“ - Não morra, bela virgem. Não sou motivo para que deixes de viver.
“ Pude ver seu rosto. Olhos castanhos, cabelos em tons de amêndoa e terracota. Não recordo feições… Mas… Ele respirava. Seu peito inflava-se e esvaziava… Ele respirava! O maldito respirava, Thaddeus!
“ - Nefesh.
“ Neste momento, voou até mim. Agarrou me pela jugular e riu em voz alta. Eu gritei, arranhei minha garganta, e nada. Tudo era mudo. Tudo era inútil sob o riso sádico. E os trovões subiram e usurparam cores e contornos do aposento. Maldito! Maldito! Pra onde ele me levou? … Eu não sei… O riso criou um acorde, e depois cacofonia. O vulto tornou-se dois, depois cinco, depois sete. E fui acorrentada por fim.
“ Meus braços foram atados em um tronco desgastado e levemente brilhante. Meus seios foram esmagados na estrutura enquanto minhas mãos esticavam meus ossos em direção ao céu. Eu estava nua. E sentia uma vergonha absolutamente humilhante ao notar aqueles seres me fitando. Eles riam inocentemente. Finalmente compreendi isso. Estavam se divertindo como nunca. E suas asas batiam animadamente, penas se desprendiam e trançavam meus cabelos.
“ Um deles, o mais bem vestido, removeu uma espada da bainha. Disse-me que eu seria um presente. Que eu seria um deles. Cravou o ângulo agudo da arma em minha pele. Minhas fibras foram arrebentadas em linha reta. Meus sulcos saltavam no ar e espatifavam-se de volta. Eu não sei descrever a sensação em meus nervos neste momento. Não existem palavras suficientes. Talvez seja melhor que eu esqueça. Soluços traziam-me a impressão de vômito, havia algo dentro de minhas tripas que cavou caminho por minha garganta. Estava louco para sair, mas não conseguia.
“ Dedos agarraram minhas costelas avidamente. E trancos fizeram com que cada gancho se desprendesse do interior de meu corpo e tomasse forma invertida. Sons secos, estalos, minha mente formigando tão intensamente que evocava a morte.
“ - Regozija-te! Pois tens asas agora. Voa então...”
- BASTA! Basta, Rebecca! Pelo amor de Jesus Cristo! Basta! Cale-se!
Thaddeus desferiu um tapa em meu rosto, perdi meu horizonte e o frio chão beijou minhas têmporas.
Desmanchei em lágrimas… Gritei… Debati-me nas amargas pedras.
- O que se passa com você?! Um sonho destes, uma atitude tão perturbada! Não eram Anjos que a visitaram! Não percebe?
Respirei fundo. As cores ao redor tomaram forma de meras tonalidades. Meus músculos receberam arranhões e arrepios. Eu estava calma. Completa e profundamente embebida na ausência de sentimentos nocivos. A quina de um banco exalando perfume de verniz me proporcionou apoio. Pus me de pé. Proferi entre sussurros e altos volumes:
- Não posso negar que foram Anjos. Pareciam Anjos. Falavam feito Anjos. Suas intenções preenchiam todos os traços de minhas concepções para esta espécie de criatura...
- Suas concepções estão…
- Minhas concepções estão perfeitamente claras agora. Elas não possuem erro algum. As proporções delas, talvez. Não sei dizer se o que vi foi miserável demais comparado ao que deveria ser, ou exacerbado demais e capaz de atravessar os limites que deveriam existir. Mas de forma alguma ouse me dizer que estou louca! Que estou errada! Porque sua razão termina onde o meu campo visual começa. A ladainha que você prega tão cegamente não serve para mim. Sua fé é estúpida e sem embasamento algum necessário para se aplicar à minha vida. Vês o que vejo? Sentes o que sinto? Eu não busco desesperadamente dizer o que é certo e o que é errado em suas linhas de passado, presente e futuro. Quem sou eu para fazer tal coisa!
Silêncio absoluto. Anjos atrás de mim.
- Você os vê agora? Hein? Pode ver? Pode sentir os vapores em sua nuca? Se esta for alucinação de minha fé, ao menos não fiz guerra contra a tua. Não entoei peãs contra teu exército. Meus ideais são meus soldados, minhas esperanças as dificuldades, e minha paciência o objetivo. Abra mão desde livro que escreveram para você! Não vivenciou nada do que está aí! Nada do que se diz digno de pena ou adoração nestes parágrafos que tanto lê em voz alta fez parte das rugas em seu rosto! São meros buracos na terra sendo encharcados por seu desejo voluntário de significado.
- Pare de blasfemar! E controle-se! Em nome de toda a nossa história juntos, ouve o que digo! Espere eu refletir melhor.
- Nasci para esperar pela morte. O que vier além disso é carregado de conseqüências catastróficas.
Um Anjo me entregou uma belíssima faca de obsidiana.
- Não desejo mais conseqüências para quem eu deveria amar por ser meu único recurso.
Em poucos segundos a pedra escura estava úmida. O licor rubro lembrava o cheiro de anis estrelado na primavera. Todos os Anjos ajoelharam, riram-se baixo e fizeram uma pequena prece.
Conserva me Domine quoniam in te speravi.
Deiecta quivis arbore ligna legit.
Vel caeco appareat
Vel caeco appareat
et in sæcula sæculorum
Amen
Vítor da M. Vívolo 31/01/11 - início. 27/07/11 - finalização.