Sermão Pagão
Mas como sinto-me estranho!
Algo que nem aspirina resolveu
Parece que estou atado ao chão
E mesmo assim flutuo
Vejo a brisa pentear a grama
Fico preso no adocicado crepúsculo
O Lusco-Fusco, a mudança de armadura e claves
Todos fazem fila para a comunhão
Tomo minha vaga, cheio de fé
Não a fé cega e aduladora
Apenas meu credo e crime
Pego a hóstia e dirijo à boca
Abro languidamente os lábios
Para que a língua do Senhor me penetre
Não é molhada.
Nem ao menos tentadora e viscosa
Não sinto sua barba arranhando meu queixo
Tudo se resume a um gosto de papelão
Uma massaroca gosmenta grudada no céu da boca
Minhas papilas estão mortas
Procuro um canto escuro e cuspo aquela baba farinhenta
Onde está o gosto do vinho?
O Padre arma as garras
E começa o encantamento gorfado por Deus
Voyeurismo, narciso, hipócrita
Que somos nós senão aspirantes a Dâmocles?
Ah, predestinados fios de cauda de cavalo!
Tão, tão, tão frágeis
Cruel e hilário púbere
Já a procura de Mephisto
Devorando o útero da mãe ampulheta
Onde fica o bulcão da auto-suficiente falta de próprio amor?
Todos dizem que tu és a resposta
da carência do espelho
Pura masturbação da ignorância
Placebo amargo
Seu antibiótico está lá fora
Não a aceitação a si mesmo
Mas a proporcionada relação
Talvez recíproca de júbilo,
Prazer e torpor existencial
Aos amados casos de amor
Ó, Pai dos Céus
Cadê tua pena? Tua voz?
Tua promessa pederástica?
Então permaneça em dourado trono
De diáfanas palmas escondidas
Até a anarquia estuprar o livre-arbítrio
No meio do caminha havia uma pedra
Havia uma pedra no meio do caminho
Chutei a porra da pedra!
Depois a tomei e repousei no bolso
Sempre de estilingue em punho
Ao som da crepitante fogueira
Abafada pelos gritos de Joana
Filha tua, a do Arco, ainda se recorda?
Veja bem, tua carne foi desvirginada por pregos
Cravada em madeira podre
Exposta ao sangue fresco fluindo
Sob o infernal escudo de luz vital
Se és tão auto-flagelador…
Como posso tomá-lo por onipotente?
O coração não raciocina
Nada mais faz do que pulsar
Uma válvula, bombeando o fluxo
Pois eu serei o verme a se instalar nele
Honrando Chagas
Eu tentarei modificar o destino no plasma
Sociedade, sou o câncer que criaste
O Anjo que expulsaste
O Catarro que te polui
E o maior fruto da horta
Negra orquídea matando Pássaros-do-paraíso
Desista de me combater
Os linfócitos sobre mim nada compreendem
Isso me motiva
Sedento por vê-la em eutanásia
Minhas companheiras?
Crocantes baratas, sobreviventes
Ao Holocausto Humano
Febre Wertheriana mas sob
vazia vazão de razões
Um urubu pousou em tua sorte
És água, eu mercúrio
És chuva, eu jorro de sangue
És futuro e passado, eu realidade
És ânus da podridão
Eu, falo de conexões químicas,
milhões de mil dendritos
Neste imenso e frio
Orfanato de Surdos
Um berro de agonia
Ou prece de aflição
São muito úteis, mesmo
Tua AIDS, tua Fome, tua Guerra
Sendo indiferentes das que
Colorem o pesado Livro Sagrado
Sustentando e mantendo em pé
A animalia em nossas cadeias genéticas
Ateísmo? Bobagem. Eis apenas
A Convicção da existência
Que tomo como incontestável:
A Minha.
Vítor da M. Vívolo 29/12/09