O Cravo Incessante


terça-feira, 28 de setembro de 2010

Gótico Grotesco. (Poesia Antiga)

Pessoalmente, esta é uma das minhas poesias favoritas. Um dos primeiros sonetos que escrevi, e um dos mais sinceros também. Eu a carrego muito próxima de minhas vísceras, espero que gostem.



Gótico Grotesco
E comido pelos abutres sou
Cada um carrega um belo camafeu
Na alva madre-pérola que brilhou
Entalhados rostos de amigos meus
Os bicos maus arrancam as vísceras
Os meus músculos sendo arrebentados
Línguas bifurcadas de mil víboras
Baforadas de cigarro dos Diabos
Lúcifer recobre-me de catarro
Vômito viscoso dos condenados
Chamas fumegantes aos expurgados
Sinos metálicos do réquiem nobre
Fedor de enxofre, lítio, prata, cobre
Tenores, sopranos e os violinos morrem
Vítor da M. Vívolo 08/10/08

domingo, 26 de setembro de 2010

Poesia antiga. Sermão Pagão.

Sermão Pagão
Mas como sinto-me estranho!
Algo que nem aspirina resolveu
Parece que estou atado ao chão
E mesmo assim flutuo
Vejo a brisa pentear a grama
Fico preso no adocicado crepúsculo
O Lusco-Fusco, a mudança de armadura e claves
Todos fazem fila para a comunhão
Tomo minha vaga, cheio de fé
Não a fé cega e aduladora
Apenas meu credo e crime
Pego a hóstia e dirijo à boca
Abro languidamente os lábios
Para que a língua do Senhor me penetre
Não é molhada.
Nem ao menos tentadora e viscosa
Não sinto sua barba arranhando meu queixo
Tudo se resume a um gosto de papelão
Uma massaroca gosmenta grudada no céu da boca
Minhas papilas estão mortas
Procuro um canto escuro e cuspo aquela baba farinhenta
Onde está o gosto do vinho?
O Padre arma as garras
E começa o encantamento gorfado por Deus
Voyeurismo, narciso, hipócrita
Que somos nós senão aspirantes a Dâmocles?
Ah, predestinados fios de cauda de cavalo!
Tão, tão, tão frágeis
Cruel e hilário púbere
Já a procura de Mephisto
Devorando o útero da mãe ampulheta
Onde fica o bulcão da auto-suficiente falta de próprio amor?
Todos dizem que tu és a resposta
da carência do espelho
Pura masturbação da ignorância
Placebo amargo
Seu antibiótico está lá fora
Não a aceitação a si mesmo
Mas a proporcionada relação
Talvez recíproca de júbilo,
Prazer e torpor existencial
Aos amados casos de amor
Ó, Pai dos Céus
Cadê tua pena? Tua voz?
Tua promessa pederástica?
Então permaneça em dourado trono
De diáfanas palmas escondidas
Até a anarquia estuprar o livre-arbítrio
No meio do caminha havia uma pedra
Havia uma pedra no meio do caminho
Chutei a porra da pedra!
Depois a tomei e repousei no bolso
Sempre de estilingue em punho
Ao som da crepitante fogueira
Abafada pelos gritos de Joana
Filha tua, a do Arco, ainda se recorda?
Veja bem, tua carne foi desvirginada por pregos
Cravada em madeira podre
Exposta ao sangue fresco fluindo
Sob o infernal escudo de luz vital
Se és tão auto-flagelador…
Como posso tomá-lo por onipotente?
O coração não raciocina
Nada mais faz do que pulsar
Uma válvula, bombeando o fluxo
Pois eu serei o verme a se instalar nele
Honrando Chagas
Eu tentarei modificar o destino no plasma
Sociedade, sou o câncer que criaste
O Anjo que expulsaste
O Catarro que te polui
E o maior fruto da horta
Negra orquídea matando Pássaros-do-paraíso
Desista de me combater
Os linfócitos sobre mim nada compreendem
Isso me motiva
Sedento por vê-la em eutanásia
Minhas companheiras?
Crocantes baratas, sobreviventes
Ao Holocausto Humano
Febre Wertheriana mas sob
vazia vazão de razões
Um urubu pousou em tua sorte
És água, eu mercúrio
És chuva, eu jorro de sangue
És futuro e passado, eu realidade
És ânus da podridão
Eu, falo de conexões químicas,
milhões de mil dendritos
Neste imenso e frio
Orfanato de Surdos
Um berro de agonia
Ou prece de aflição
São muito úteis, mesmo
Tua AIDS, tua Fome, tua Guerra
Sendo indiferentes das que
Colorem o pesado Livro Sagrado
Sustentando e mantendo em pé
A animalia em nossas cadeias genéticas
Ateísmo? Bobagem. Eis apenas
A Convicção da existência
Que tomo como incontestável:
A Minha.

Vítor da M. Vívolo 29/12/09

Livre Ensaio Sobre Absolutamente Nada

Inicio este post simplesmente por vontade minha. Eu não possuo ambição alguma ao começar a escrevê-lo, muito menos sei o que desejo expressar. Neste exato momento apenas sinto-me indignado com o rumo que permiti que minha vida tomasse, a imbecilidade que parasitou meu julgamento social e que agora é tratada para atingir sua ruína. Raiva, pura, simples, e merecida RAIVA.


Eu poderia enrolá-los com mil palavras e discursos sobre hipocrisia, falsidade, distorção sentimental e afins... Mas nada disso expressaria de forma sincera e real os maus tratos  aos quais fui submetido. Taxaram-me de volúvel, manipulável e emocionalmente frígido. Último adjetivo este que me faria o maior dos bens caso fizesse jus a mim. Eu preferia mandar todos à merda, e dar minhas costas, a ouvir ofertas imbecis e pedidos egoístas.


Provavelmente eu amo você. Na verdade, é absoluta certeza. Independente do quão cretino você seja. Sabe o motivo disso? Minha velada crença na perfeição daqueles que guardo perto de mim. Como se apenas eu fosse nutrido de possibilidades falíveis e cruéis. Aliás, esta é uma das minhas dádivas... amar pessoas dignas, respeitosas, e incríveis... e ao mesmo tempo amar pessoas completamente idiotas e que me trazem situações péssimas e amorosamente frustrantes.


Provavelmente quem deve ser atingido por minhas palavras e raios de revolta através deste refluxo de desabafos não perceberá que é meu alvo. E meus amados anjinhos chorarão por sentirem-se ofendidos, quando na verdade nem pensei em dividir uma vírgula destes parágrafos com eles.


Não confie no julgamento alheio. Por favor ouçam... Porque bondade é a responsável por cerzir os forros dos capachos. 


Não é a toa que acordei com dores nas costas ontem e hoje.


Confio apenas em minha Amazona Francesa, minha Guerreira-Irmã de Sangue e meu Angelo di Ella nesse momento.


Boa noite.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Trindade ( Conto )

Trindade
Tantas linhas tortas na partitura. Era impossível discernir gotas de sangue que foram gorfadas das notas originais da composição. No fim, fizeram belas coloraturas acidentais por todo o aposento… Alguma cor além do ouro espectral chorado pelas longas velas decadentes.
- É este o castigo que me afligirá para provar Sua existência? - levou a manga aos lábios para secar a fonte de hemácias fugitivas. - Bastardo. Filho de uma puta!
Uma punhalada de líquido impediu que continuasse. Suas entranhas se derretiam em guturais golpes de dor vermelha. Cada engasgada era o exorcismo da vida intrusa que desejava todas as curvas de sua garganta. As mãos encharcadas marcavam os móveis, tecidos e páginas virginais. Mesmo assim, ele insistia em se firmar em algo…
A respiração era arfante e úmida enquanto ele sentia a imensa queda de realidade. Taças haviam esmurrado seus ombros e se transubstanciado em cristais fedendo a álcool. Livros gordos das gotas de chuva vomitadas pelas janelas apodreciam no chão. A tinta vermelha que expelia tentava reproduzir o crepúsculo, ao pingar sobre as poças de lágrimas do céu lambidas pelo luar.
Precisava gritar, mais do que respirar, mas tinha medo. Seus pulmões já estavam praticamente do avesso. Sentia o coração em contraponto ao metrônomo sobre o piano. Era tão doloroso.
Por fim levantou-se ao notar o leão raivoso dentro de si acalmar seus rugidos. Havia abortado seus fluídos mais viscosos e rubis por completo, talvez. Cambaleou, até o chão decidir-se por endireitar o horizonte. A neblina dos olhos evaporou, e as mãos se apaixonaram pelo firme mármore da pia do banheiro.
O último dos demônios sangüíneos se estatelou no mármore confiável. Só então germinou a coragem de fitar sua ruína no espelho. Era sempre pavoroso reconhecer o monstro que já se julgava sob o véu da anemia da voz. Desdenhou da moldura de flores de lis daquele oráculo vitrificado.
Ergueu a cabeça e jurou guerra ao que viu. O abandono dos céus e infernos finalmente havia se encarnado em seu crânio. Nada regava vida em suas faces, os lábios tingidos gritavam fúnebre decreto. As veias saltavam sem cor, simulando vermes mortos estacionados sobre a carne. Os olhos escuros eram empaladores.
Uma luz nasceu em seu olhar, acorrentada à torrente salínica que dançou nas curvas do monstro refletido. Fez-se breu em sua mente e os cílios eram a represa que improvisou desesperadamente. Cobriu o rosto com os cabelos desgranhados e fatiou a pele com as unhas rubras.
- Por que não me leva?
Silêncio. Música da garoa lutando para sobreviver lá fora. Fermata daquela persistente dentro dele. Tomou consciência do peso de suas vestes ensopadas por substâncias. Eram sua deliciosa prisão, o placebo para sua dor.
Rasgou os tecidos inocentes enquanto suas garras saciavam a violência do toque. Em um segundo se encontrou liberto. Perambulou o corpo lactescente até apalpar a genitália. Esticou brutalmente a pele recheada. Sentiu a costura das cicatrizes de sua voz.
Ele era isso. Friccionou-se. O tegumento artificial do canto dos anjos. Gemeu. A escultura dos moldes gregos, incompleta. Cresceu. O espírito dos maestros apaixonados… Fricção… pela suplicante… mão puxa… voluptuosa… mão estende… Deusa da Inspiração… Mais rápido.
Volume… Olhem para ele!… calor… Recheado de aspirações daquilo que não é… fluxo de quentura… mais… ah… por favor mais… vai… vem… sobe… desce… Venham demônios! ...movimentos de quadris… Anjos! … baforada… Almas dos infernos terrestres! Venham me tocar… Me lamber… involucrar meu desejo com suas úmidas superfícies…
Explosão. Dor. Cicatrizes latejando. Exaustão. Nojo.
Ele sabia que seus dias de missão estavam contados. Apenas havia se esquecido que a invulnerabilidade dos Deuses morria fora dos palcos. E ele nada mais era do que um Evirato de Adão e Eva sucumbindo juntos à serpente da vaidade vocal.
Vítor M Vívolo 16/09/10 00:58 a.m.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Boudoir ( Conto antigo )

Me deu saudade desse conto. E eu resolvi postá-lo aqui.

Boudoir
    Estava adormecido por um tempo. Despertou languidamente, estendeu os braços no ar, tentando expurgar o cansaço ainda restante. Esfregou os olhos, bocejou e procurou discernir os objetos do quarto na escuridão. Sentou-se na cama e fitou as sombras. Foi quando pôde ouvir a melodia ao longe.
    Então não era sonho, ele realmente podia ouvir um piano sendo derretido em notas harmoniosas. Levantou-se. Conhecia aquela música. Vibrante, densa. Uma Sonata de Haydn, tinha certeza. Caminhou até o batente da porta e descansou a cabeça na madeira fria. Tudo ainda estava afundado em trevas, apenas um resto de luz âmbar banhava as paredes. A lareira estava acesa.
    Desceu as escadas, seguindo o trajeto de luz e melodia. Atingiu finalmente a sala de música. Onde estava seu amante. Sentado, usando apenas uma longa camisola de linho branco, tingida de dourado pelas chamas crepitantes. Os dedos deslizavam pelas teclas, ágeis, esguios, delicados. Queria aqueles dedos deslizando sobre sua pele, acariciando seus cabelos, descendo traiçoeiramente para onde a exitação estava sendo alimentada.
    Aproximou-se cautelosamente, passo a passo… As notas graves mesclavam-se à sua densa urgência. Deixou a mãos tocarem os ombros do parceiro, que se mantinha calado. Pressionou levemente o linho, podendo sentir a carne tenra que era cobrida. Encostou seu peito nas costas do outro, que então sentiu o volume que o tocava. As notas pararam bruscamente.
    A mão direita do amante tocou a sua. O perfil de seu rosto finalmente começou a ser abençoado pela luz, tornando-se visível. Um rosto pálido, ligeiramente corado pelo sangue fresco que havia sido sorvido. Mesmo assim, era sobrenaturalmente gélido. Havia necessidade em esquentá-lo, em torná-lo abrasador. O outro rapaz sorriu, de maneira fraca e sórdida, movendo-se no banco para que houvesse espaço suficiente.
    Fez um convite, que foi aceito prontamente. Ambos dividiam o mínimo de distância possível. A mão da criatura frígida acariciava os joelhos do outro. Dançava malevolamente, procurando atingir a virilha. Era possível enxergar o volume formando-se também. E tudo que se ouvia eram suspiros ofegantes, súplicas silenciosas.
    A mão atingiu o cobiçado órgão. O amado deixou escapar um gemido quase inaudível. Os lábios tornavam-se sedentos. Logo trataram de se aproximar. Escorregavam, e antes que percebessem, já entrelaçavam as línguas. O amado laçou o outro com seus braços, o puxou para si violentamente, a relação carnal ganhava requintes animalescos. 
    As camisolas começaram a ficar ensopadas de suor, aderiam-se ao corpo, revelando formas e contornos. As mãos vagavam sem rumo. Eram traiçoeiras, apalpavam tudo aquilo que era cobiçado. Até encontrarem seu caminho por debaixo das roubas, agora incômodas.
    Sentiam a pele agora, sentiam a rigidez e a fúria dos hormônios. Era tudo úmido, latejante, ardente. Movimentos bruscos aconteciam, simulando a copulação. Jogos pervertidos. Provocações. O amante pairou os lábios no pescoço do acompanhante, penetrou as presas enquanto continuava o repetitivo toque. O amado sentia um fogo arder, mais vermelho que o da lareira, sentia os fluídos, o som molhado. Se contorcia inevitavelmente. O ar não era suficiente.
    O vai-e-vém ficou agressivo. Cada vez mais rápido. E ondas fortes de magnetismo o dominavam. Pensava que morreria de tão intenso fogo. Chegava a sentir dor, não aguentava aquele torpor querendo sair. Um formigamento o tomou. Seus pés se contraíram, seu corpo estremeceu. Um jato quente manchou o tecido. E a dormência rascava sua mente, deliciosa. Inevitavelmente urrou notas que o piano não podia captar. Eram sopros de ar, involuntários.
    E entregue nos braços do amante, sucumbiu. Exausto.

Vítor M Vívolo 12/09/09

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

The Letter

'Well, well, well... So here you are you presumptuous bastard.'


  And he walked at me, with his turned up nose and affected moves. He looked much more like a fat, old peacock than a human being. I couldn't help but laughing a little bit, whilst I tried to swallow a scandalous mocking impulse. It was utterly pathetic, but he just could not see it. Could he? No, indeed he was blind to that fact. He was bearing a smile - proud and large - on his pustular face when he handed me the letter.


'Please read it.'


'Is it for me?'


'Read it and then tell me.'


   I took a deep breath. And the air of the room had a flow of a disgusting smell, something like sweat and lack of sense. I opened the envelope and ran my eyes through all the weird punctuation, nauseating collocations and shallow linguistic murders. It all tried to make sense, but would not. Never. The author of this horrible expensive toilet paper was clearly a Narcisus without reflection. Some creature proud of flourished ignorance accusing the world of monstruous crimes. Even though the biggest crime of them all was to make this empty and narrow-minded heart of his to pump with the most delicious hippocra of life: warm blood.
   How can a lizard have blood licking his veins and flesh inside? Wait. He was not a cobra, not even close. He was an insect. A little bee... being carried away by the wind and trying to surpass its tiny brain and näive sting. A little creature living on the pólen of the damnest mistakes of ego and blind society. Someday it would hit a window. And then, only then... It would die, slowly... without even knowing what blocked the superb mission of... of.. of... completely nothing. Maybe feeding the big queen? The big queen being miserableness. Yes, that's right.So I replied:


'It's a fine letter after all.'


'Really?'


'It has words, it is printed on paper...'


'Sure. That's the definition of "letter", am I right?'


   I thought about this comment for some seconds. It was just ... contempt... screaming inside of me.


'Well. That's your definition.'








Vitor M. Vívolo 09/09/10