O Cravo Incessante


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Não mentimos para proteger os outros. Mentimos para nos protegermos do remorso.

Conto  novo em breve.

Boa noite.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Karkinos

Câncer a gente remove assim. De uma vez e para sempre.

Nunca mais meu sistema será frágil à futilidade, imbecilidade e hipocrisia.

Nunca mais.

O passado é algo que me perturba. E eu descobri o motivo. É a voz da minha consciência.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Homini Vorax (Conto)

Homini Vorax
     Por alguns segundos mantive-me parada na porta daquela horrível moradia demoníaca. Meus lábios estavam gelados e o sangue escapava de minhas bochechas, eu desejava me entregar ao pranto o mais rápido possível. Mas não havia tempo para isso. Não.
     Toquei o portão enferrujado e limoso, uma onda de asco percorreu minha espinha. Ainda podia ouvir suas palavras. Ainda podia ver seu rosto desviando do meu. Ainda podia ver aquela sombra tenebrosa atrás dele, sorrindo para mim, absolutamente crente de que era invisível a todos. Você traiu seu Deus, minha jovem. Você traiu aquele que é Dono do seu Corpo e Sangue. Eu não podia sentir aquilo tudo, eu sabia disso. Mas meus caprichos eram baseados em minha crença pela pureza dos sentimentos humanos. Fiz algum mal em crer nisso? Meu Pai, em nome de sua misericórdia, me ouça. Me diga que está ouvindo, faça-me saber de Sua existência.
     As engrenagens do portão gritaram quando eu o empurrei. Os ventos trinavam suas lamúrias em meus ouvidos, baforando neblina em meus olhos que lacrimejavam. Levantei meu olhar aos Céus e tudo o que pude ver foram os Inquisidores de Pedra acima das lápides. Anjos, Cruzes, Coroas, Marias e Cristos retorcidos em pura agonia. Fiquei sem fôlego. Eles sabiam. Todos eles. Ao longe, uma pequena gargalhada morreu em um pigarro. Eu não estava só, o coveiro ainda estava em seu turno. Tudo tinha que ser feito rapidamente.
     Olhei para meu vestido sujo de sangue. As pérolas e bordados tingidos pelo pecado. O que eu fiz? Se você existe, meu Criador, faça-me compreender. Meus ombros sucumbiram ao peso de minha consciência, e caí de joelhos. Lágrimas lavavam meu rosto, e faziam as manchas rubras que já haviam secado, reviverem. Sentia vontade de arrebentar meus cabelos, de destruir meu vestido, e acima de tudo, de vomitar. Minha maior vontade era ser Ofélia das lágrimas que chorava. Observava minha mãos, sob as unhas existia uma crosta de sangue pisado e terra pútrida.
     Um pequeno gato cruzou meu caminho, indiferente à minha dor. Sentou-se sobre os degraus de um túmulo gigantesco de pedra, encarando-me impiedosamente. Era uma Esfinge dos Infernos. Ele veio me buscar. É ele. Eu sei que é. Tentei em vão repetir o quanto estava arrependida, expliquei o quanto minha vida corria perigo nas mãos daquele momento. Eu não era nem um pouco diferente da vontade Dele. Não era! Não é possível matar em Seu nome? Remover uma vida para salvar tantas outras? Aquilo não podia ser escolha minha?
     O diabrete felino manteve-se em posição. Limpei as lágrimas de meu rosto e pude observá-lo melhor. Uma ferida estava aberta em suas costelas, e dentro dela algo se mexia. Eram pequenos pedaços de vida, dançando naquela cratera orgânica. O animal parecia não se importar e continuou a condenar-me. O que eram aquelas coisas asquerosas vivendo dentro dele?
     - Homini Vorax. - disse uma voz rouca ao pé de meu ouvido.
     Virei-me assustada, pronta para empurrar aquela sombra para longe de mim se preciso. Uma mão velha e enrugada segurou meu braço, eu podia ver os traços da morte sob a pele daquele ser. O pequeno idoso sorriu, tentando confortar meu desespero. Meus olhos fixaram-se na pá amassada que ele carregava sobre o ombro. Aquela era a ajuda que eu precisava. Um coveiro experiente e pronto a engolir qualquer segredo em troca de algumas moedas ou anéis caros.
     - São as moscas. O bichano se machucou numa briga e um pedaço da pele foi arrancado. Eu não acho que ele tenha se importado, e assim virou comida disso aí.
     - Ele não sente dor?
     - Não sei. É impossível dizermos o que aqueles que não tem voz sentem. Mas não deve ser nada agradável, as larvas mordem o coitado o tempo inteiro.
     O protagonista de nossa reflexão decidiu levantar-se e se aproximar. A cada passo eu podia entender melhor o que o velho havia dito. Um rombo estava aberto, pigmentado por cores avermelhadas, pretas e amareladas. Havia pus escapando por pequenos orifícios e vermes pulsavam naquela gama de cores. Eram larvas de mosca, rascando seus corpos gordos e anelados dentre os pêlos. Algumas caiam conforme pegadas mais fortes eram dadas, e ficavam agonizando na terra, sedentas por sangue.
     O olhar felino não se desviava do invisível a sua frente. Gostaria de poder entender o que ele enxergava. Então fui golpeada por seu olhar âmbar, após um longo bocejo. Os dentes afiados me causaram desconforto imediato. Provavelmente um pequeno grito escapou de meus lábios trêmulos, já que o velho ria e tossia escandalosamente enquanto me fitava. O terço que eu carregava em minha mão esquerda se espatifou no chão. E para minha surpresa, o gato mordeu o Corpo de Cristo e fugiu com ele em sua boca.
     Este era meu sinal. Só então compreendi. Aquilo tudo nada mais era do que a explicação para meu pesadelo. Minha Razão havia sido mutilada por aquele impulso odioso. Minha razão era a o ninho para as larvas. O vazio que mantive aberto e regado de sangue foi preenchido por pústulas de Insanidade. E as larvas que brotavam vinham de ovos frágeis e traiçoeiros implantados por minha Fé. Eu estava sendo consumida, aos poucos. Eu era a hospedeira definitiva.
     - Eu sei porquê você está aqui, mocinha. - Os olhos avermelhados e mortos fixaram-se no sangue em minhas vestes. - E eu posso ajudá-la.
     - Não quero que me pergunte absolutamente nada. Eu quero que me obedeça apenas.
     Fui motejada por um gesto indecente de reverência e apelidada de ‘Majestade’ enquanto ele concordava com o plano. Eu olhei para a pá novamente e contive meus piores pensamentos. Disse que o corpo estava apoiado nos muros de pedra, ao lado do portão. Ele precisaria me ajudar. Estiquei meus dedos sob a luz da lua e esclareci que ele poderia ter qualquer uma das pedras que abraçavam meus ossos trêmulos naquele momento. Ele olhou para mim, coçou a barba e riu novamente, em escárnio.
     - Eu tenho um saco de moedas junto ao corpo. Nos bolsos do casaco do homem morto.
     - E a prostituta com quem ele estava? Onde está? Eu adoraria ganhá-la também.
     - Não há prostituta alguma, agora cale-se e me ajude. Sem perguntas.
     - Que pena. Eu não me importaria em ter uma mulher bonita por aqui.
     Naquele instante o encarei. Percebi que o havia assustado.
     - Não foi o que eu quis dizer, Majestade. - Um pigarro seguido de um cuspe no chão. - Eu prefiro mulheres bonitas que não reclamem e nem gritem. O problema é a que as que tenho por aqui - Fez um largo gesto englobando as lápides - estão todas passadas do ponto. Fica difícil foder um monte de pele seca depois de um tempo. Eu queria algo mais fresco. … Mas que não esteja a fim de me dar trabalho, você entendeu. 
     Meu estômago girou em um nó, senti um ardor subindo pela garganta. O engoli. Não havia tempo. Não havia tempo. Calei-me e pisei em frente, indicando para que o velho me seguisse. Podia ouvir seus passos arrastados atrás de mim.
     Chegamos ao muro de pedra e observei meu trabalho imprudente apoiado na parede. Ele estava da mesma forma que eu o havia deixado: sentado, com a cabeça pendendo para o lado. Tudo isso o velho pôde supor, já que o corpo em si estava coberto por um manto de veludo negro. Caminhamos até aquele embrulho filho de uma puta e dividimos seu peso. Meu ajudante fez praticamente todo o trabalho, e me senti grata a ele.
     Adentramos novamente e o tombamos sobre a terra.
     - Daqui pra frente pode deixar que eu continuo, querida.
     - Os anéis. Escolha.
     Estendi minha mão e fechei os olhos. O toque daqueles dedos gosmentos me trouxeram a memória da briga toda de algumas horas atrás. Ele fez suas escolhas. Minhas mãos estavam completamente nuas agora. Abri meus olhos apenas para encontrar o serviço já sendo feito. O corpo estava sendo arrastado pelos braços até algum local mais remoto.
     Mantive-me em pé, parada, observando meu pesadelo terminar. Não sabia se o que sentia era alívio. Ao menos era algo muito próximo. O suficiente para que eu suspirasse e sentisse minha respiração em legato outra vez. Então senti uma pressão em meu vestido. O Gato doente estava se esfregando em minhas vestes. As larvas grudavam na renda manchada. Criaturinhas malditas. Gato nojento. Chutei o animal com toda a força e ouvi sua dor.
     O homem virou-se, alarmado, e riu da cena. A briga não havia terminado. Eu havia irritado aquele vaso de pestilência e pêlos. Em movimentos rápidos, suas garras se cravaram em minhas pernas. Puxavam e rasgavam as anáguas. Ódio pulsava em minhas veias.
     - Eu te ajudo a tirar esse bicho daí.
     Aquele monte de carne seca voltou para perto de mim com a maldita pá. Ele fazia barulhos altos mas a valente fera não sucumbiu. Não havia tempo. Não havia tempo. Peguei a pá da mão do homem. Não havia mais tempo! Um forte golpe metálico tiniu misturado a um gemido estridente. Soltei a pá.
     O crânio afundado sangrava, as larvas dançavam, o velho tossia. Eu estava libertada finalmente. Então vi a sombra negra. A mesma sombra negra da hora em que a vida escapou do corpo em meu primeiro assassinato da noite. Ela estava ao longe, na rua, de braços cruzados. Sorria. Perguntei-me que tipo de proposta o Demônio teria para mim.
Vitor da M. Vívolo 15/01/11 às 3h44 da manhã.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Ofélia

Minha maior vontade é ser Ofélia das lágrimas que choro.

(Ps: Logo mais um conto será postado.)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Pétalas

   Poucas coisas são tão constantes na minha vida quanto o sentimento de solidão.

   Não digo total solidão, como se o mundo fosse uma tortura diária. Não. Mas aquela sensação estranha de ser 'filho único' no mundo. Um vaso sem par. Uma panela sem tampa. Faz sentido?

   Inevitavelmente, é cada vez mais engraçado me ver acostumado a esta condição. Nasci sozinho, posso muito bem morrer sozinho. E isso não me faz ter que abdicar de meus amigos e poucos companheiros que conquistei ao longo desses dezoito anos. Assim, talvez eu não sirva para namorado. Para relacionamentos. Para nada que tenha alguma conexão com amor cúmplice...

   Na realidade, nenhum ser consegue viver só. Se necessário, criam companhia. A castidade religiosa por si só não é submissa à existência de Deus? Mesmo em completa solidão, Padres se agarram na crença em alguém que os acompanha.

   Bem, eu posso estar errado. Enquanto isso, sou Orfeu e Eurídice. Eurídice sendo minha sanidade. Se eu olhar para trás, pode ser que desista de vez.

   Mas, sinceramente? Eu duvido que desista de sobreviver por um motivo tão besta. Eu sento e espero uma bela alma me libertar da Maldição da Rosa, enquanto ainda existem pétalas que não beijaram o chão.