Não vou hesitar ao dizer isso. Nunca mais. Sou a única fonte de minhas alegrias e decepções, de meus problemas e conquistas. Creio ser inútil tentar culpar qualquer outro acima de mim. Isso sem dizer, obviamente, que sou o único ser que conheço por todos os ângulos. Reconheço o quanto tudo isso soa estúpido, mas se tiverem paciência, existe um motivo atrás de mais este desabafo.
O ano de 2010 foi uma merda. Não correspondeu expectativa alguma que tinha dele. - Mas por um lado, talvez eu realmente não esperasse nada. - E consigo me lembrar do champagne, dos gritos e da alienígena roupa branca que repousava em meu corpo enquanto eu comemorava o recomeço do ciclo. Doze meses.
Eu precisava sobreviver apenas mais doze meses pra tudo começar de novo. (Aliás, justamente por isso que não dou valor algum a essas datas comemorativas. Algum de vocês vê graça em água evaporando e se liquefazendo? O princípio é de mesmo valor para mim.) ... O mesmo vale pra aniversários e afins, mas não entrarei em detalhes... Não interessa. Pois bem, doze meses. O ano seria algo inesperado. Me focaria em Teatro, Música, minhas amizades, leituras e todos os pilares que sustentavam minha vida no momento em que o relógio tiquetaqueou para um minuto depois da meia noite.
Resumindo... Os pilares eram feitos de material não muito confiável e eu não sabia.
Ou melhor. A culpa não foi minha. Tudo bem, a culpa total não foi minha. Mas de resto, - nessas horas que percebo como algumas crenças minhas são engraçadas - eu tomo o destino e os acasos como colaboradores.
Ok, discorro.
Teatro.
As peças teatrais que participei me trouxeram ótimos resultados. Aprendi muito com o elenco todo do lugar em que trabalhei, e minha diretora me ensinou uma das maiores virtudes da vida: lidar com crianças e perceber o quão maravilhoso é o pensamento limitado e ao mesmo tempo fértil ao extremo delas. São anjinhos. Tudo é uma graça tremenda e, salvo algumas que nasceram para formar o séquito do novo Anti-cristo, agradável em dias tenebrosos. São pequenos querubins que desejam sua atenção e carinho. E suas maiores conquistas são baseadas nos momentos em que percebem o quanto são maduros para a sociedade em que vivem. Eu os amo, eternamente... E muito do que descobri de mim foi graças a eles. Eu particularmente nunca abandonei essa última característica, justamente por nunca ter me sentido uma peça nas ruínas do Pensamento Social Atual.
A oportunidade de elaborar um roteiro a partir de um livro abandonado em um sebo, e adaptá-lo para um Musical... Foi única. Tecer a trilha do espetáculo, a profundidade das personagens... Embarcar em um universo em que eu era tão onipotente quanto os autores das obras que me sustentaram foi delicioso. E não posso dizer que me decepcionei com o resultado de tanto trabalho e dedicação.
Por fim, para fechar esta categoria... Aceitei participar, depois de certa dúvida, de mais uma montagem na escola que tem sido minha fonte para a cultura Musical Theatre. E bebi em grandes goles tudo o que pude absorver. As experiências, os contatos, os desafios, os tombos e risos. Me apaixonei mais e mais por pessoas que nem via com tanta freqüência... E... Não quero me prolongar muito neste parágrafo porque não tenho o que dinamizar sobre ele. Foi fantástico. E morre neste adjetivo.
A Música.
Uma das experiências mais estranhas para mim continua sendo me ver tão amante destas malditas manchas nas folhas com cinco linhas. Eu me lembro de que até uns dez ou onze anos de idade... Música era uma das coisas mais babacas na minha vida. Eu não conseguia encontrar graça alguma em ouvir Cds, decorar letras e cantar. Não conseguia. Como eu era uma criança doente. Céus.
Um arrependimento meu é este. Se eu tivesse sucumbido a esta Arte, que agora é apenas uns setenta por cento da minha vida, mais cedo... Minha voz teria sido a de um sopranino... E eu mesmo poderia me orgulhar de ter sido uma das vozes que me arrancam o coração hoje em dia.
Mas eis que a Música é uma Dama Exigente. E quanto mais dedico meu sangue a ela, mais sua sede aumenta... E as teias de sua influência sobre minha vida me sufocam. Me amarram os membros e puxam para todos os lados até eu gritar que estou sendo arrebentado. A parte engraçada? É preciso aceitar a tortura. Ponto. E todos os maestros e sábios querem que seja assim. Querem cada célula sua apodrecendo de tantas notas permeando-as. Querem que você seja um cancro musical ambulante... Disseminando seus sintomas terríveis de falta de nexo e divindade para aqueles que não entendem metade do que você diz. Ou entoa. ... praticamente uma vida religiosa, digamos. Se padres não fazem sexo - ou pelo menos deveriam não fazer... - , Músicos não vivem de mais nada que não seja Música.
E assim, reconheci que preciso de mais tempo para me julgar aprendiz deste microcosmos da comunicação humana. Um ano e meio não bastou para me firmar nem um pouco. E não desistirei. Se eu precisar virar um novo Beethoven e ensurdecer de tanta abdicação... É isso que terei em mente cada vez que pensar em desistir.
Minhas amizades.
Ah, minhas amizades - Espera. Que amizades?
Amigo meu, sou eu. Disso estou certo. Apesar de que grande merda de amigo eu sou às vezes. E aí reside a resposta.
Não consigo ser bom nem mesmo para mim, e fico surpreso quando dizem que estou sendo bom para os outros. Quando dizem que me amam. Que gostam da minha companhia. E uma das frases mais valiosas do ano foi me informarem que "sou tão amado justamente por ser quem sou. Nada mais." Acho que as pessoas são cegas e sofredoras de alguma demência.
Só queria que todos entendessem que um ponto dessa frase que ouvi faz sentido. Eu sou quem sou. E se tem uma coisa que absorvi durante essa minha curta vida melancólica e altamente dramática. - Por minha culpa e vontade, não que eu sofra muito... E tenha provado do chocotone que o diabo amassou... ou algo parecido. - É que devo ser o pilar mais alto no Altar dos Meus Sentimentos. Acima de Deuses, de qualquer Crença ou Moralismo. Porque, meus caros, tudo é baseado na falta de certeza da vida.
Pensem.
A Morte em si, nossa única certeza... Não é uma resposta. Não resolve nada. Estamos certos de que ela existe, claro. E o que vem depois? Ninguém sabe. Ou seja, se até as poucas certezas que temos não nos deixam em paz completa... Por que devo eu me preocupar com respostas pra perguntas imbecis e provas de que não sou defeituoso? Dane-se.
Não confiem em mim. Eu não confio. Não me amem. Eu me amo, mas sempre mantenho um pé atrás. - Consigo ouvir os chatos que vão me jogar na cara momentos de baixa autoestima neste momento. Quero que vocês sintam meu cuspe em suas testas nesse momento. Falou? - E, queridos, mantenham sempre uma coisa em mente: eu os amo. Todos.
Metade dos que conheço me odeiam... E acho que metade disso são as pessoas que detesto de volta. De resto? Todos os parafusos vagabundos que quebraram me fizeram persistir em achar os bons que prenderam as peças e figuras. Até mesmo meu ódio pode ser visto, portanto, como uma forma de homenagem.
Eu não minto para vocês, jamais. Minto primeiro para mim mesmo. Assim como Anne Rice diz em um dos seus livros. Roubarei esta frase por ser tão oportuna.
Por fim...
Estes últimos meses foram presentes e pesadelos, e devo reconhecer isso mesmo que não goste. Me fizeram refletir sobre o rumo que devo tomar, sobre os arrependimentos que devo abandonar... (Deixem-me também reforçar que arrependimentos são perda de tempo pra mim. Aprendi o que tinha que aprender no momento em que errei, então não vou reviver estas épocas buscando algo além do que já refleti. Não adianta. Seria o mesmo que arrancar um naco de pele cancerosa e esperar que outra doença se instalasse no lugar para comparação.) Passou. Terminou. Aprendi ou não. E basta.
As amizades novas que conquistei - e as que reconquistei e/ou alimentei também entram na lista - circulam dentro de mim todos os dias. Me fazem sentir o quanto é perfeita a imperfeição humana... E como a individualidade de todos é apaixonante. Me excito em descobrir detalhes banais sobre meus companheiros e me prendo a eles para ressaltar o quanto meu amor forjou sua chave em fatos mundanos. Eles são meus companheiros, e andamos se não de mãos juntas, pelo menos em passos paralelos, na Desafiadora Estrada Sem Resposta. Tão auto-ajuda isso, né? Mas foi o que consegui.
Ah. Os que partiram? Os que erraram? Os que abandonaram? Os que sentem asco por mim? ... Todos me amam de alguma forma doente. Eu sou uma das imagens dos camafeus de seus corações feridos. E são muito queridos por mim. Se Deus possui o Diabo para discutir... Eu mereço espinhos para fazerem valer as Rosas. E que fique claro que prefiro ser o Diabo nesta comparação. Me parece que o único que evolui com tudo é ele. O Outro nem faz nada, se acomodou com os próprios erros e fica vendo no que vão dar. É.
Resumo da Ópera: Tudo o que esqueci fiz porque achei ser o próximo degrau a subir. Isso não me faz abandonar os degraus que me ergueram anteriormente, nem nada parecido. Admito somente isso. De resto, os que me conhecem entenderão o que quero dizer aqui... Mas não direi.
Minhas leituras todas foram de fundamental importância para a fogueira da sanidade não apagar na minha mente. Acabou. Se quiserem, vejam a coluna ao lado... Minhas recomendações de livros ficam por lá. Bah.
Finalmente termino estas linhas. Não fazendo idéia do que escrevi, do que fez sentido e do que foi sincero... A maioria deve ter sido mero desabafo. Não injetem muita fé não.
Espera, estou falando com quem? Ninguém vai querer ler um texto tão grande.
Mas se eu fosse você... Você mesmo, que pulou para as últimas linhas... Pelo menos arriscaria ler um pouquinho... Vai que blasfemei seu nome lá em cima, né?