O Cravo Incessante


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

La Reine ( Conto )

        Podia jurar ainda ouvir o cântico fúnebre nas ruas fétidas e asquerosas, o choro dos últimos jardineiros das Flores-de-lis. Era tudo extremamente sentimental e animalesco, e obviamente delicioso. Todos dormiam, e apenas os passos daquele espectador atrasado ecoavam nas pedras cobertas de sujeira, sangue literalmente pisado e vestígios humanos. A Sombra da Morte era tão intensa que causava arrepios em sua pele gélida.
        A testemunha da terrível noite de dezesseis de outubro de mil setecentos e noventa e três. Com certeza era a última testemunha do cadafalso ainda exalando cheiro de sangue azul. Sangue doce. Sangue inocente, de acordo com suas narinas e convicções. Mas o que poderia ele fazer? O que desejaria fazer, por acaso? Pois bem. Suspiro longo, a escuridão absoluta inundando sua alma através dos pulmões.
        Finalmente criou coragem para dar alguns passos a frente… Caminhou sem pressa alguma, como se cada membro seu fosse uma parte morta do organismo que necessitava ser reavivado antes de receber alguma ordem. A mão direita repousava no peito, roendo o bordado dourado da gola do casaco com as unhas; feito um predador analítico. A mão esquerda apoiava-se na espada fria que carregava na cintura, onde os dedos dançavam com a bainha. Por fim, controlou seu nervosismo contido e olhou a seu redor. Como terá sido? Pessoas gritando e cuspindo naquela pobre mulher? O pequeno avestruz foi rejeitado feito um bicho no abate? Ah, sim…
        Podia ver a pobre ci-devant graça em sua cela, abraçada por seu luto recente, permeando as fases do epílogo de sua vida. É realmente uma sensação única receber sua sentença de óbito… Tudo aquilo que foi feito torna-se um fardo, e o que foi esquecido uma amarga esperança eviscerada. As lágrimas rasgam as córneas em manadas, até o coração esvaziar por completo. Cria-se então o nojo por qualquer sentimento de dor, ressentimento, mágoa, arrependimento e até mesmo tristeza. Assume-se uma postura altiva, arrogante e sombriamente angulosa. O olhar perde o brilho para transparecer dignidade. E assim foi com nossa querida amada… Por que não?
        Sorriu. A morte é tão poderosa quanto o amor, não é? Nos possui de formas tão variadas e sórdidas… Sempre esgueirando-se entre as frestas de mentes fracas, oprimidas e drogadas. Ergueu a lâmina da espada em riste e gargalhou. Venha, minha amiga! Venha até mim! Eu a salvarei. Eu serei teu anjo. Abram espaço, soltem A Rainha! Ela virá comigo! Invadiria sua própria jugular com alguma lâmina e esparramaria seu sangue sobre aqueles lábios fisgados pelo ódio tipicamente alemão. Sangue Impuro misturando-se ao Sangue Real. Lambendo cada veia seca e doente, subindo por cada fio de cabelo arrebentado pelo passado. Ah… Ela seria uma visão…
        Cravou a espada no chão - uma bengala provisória para seu deleite - e aproximou-se de uma vez da estrutura de madeira… A espada se espatifou e tiniu. Eu perdi minha chance, querida. Sinto muito. Por alguns segundos imaginou a breve melodia daquele monstro. A Guilhotina. Vshhhhhhhhhhhhhh e o som da espinha sendo partida ao meio. Rapidamente a cabeça cairia na cesta, regendo o início do coro de revolucionários sedentos. Uma cena que faria de tudo para assistir. Conhecia uma variedade de últimos suspiros humanos, mas aquele seria uma novidade excitante.
        Ouviu um choro à distância. Uma fêmea desesperada em agonia. Mon ange! Mon cher ange! Dieu! Era provavelmente a única janela aberta nas redondezas, e uma mísera vela lutava contra o vento para manter sua missão no interior daquele quarto. A curiosidade o incitou mais do que esperava e em poucos movimentos felinos encontrava-se bem abaixo da janela da donzela em perigo.
         - O que houve, Madame?
        - Meu filho, Monsieur! Meu filho! Eu estou o chamando há alguns minutos e ele não responde. Me ajude, pelo amor de Deus… Meu marido não voltou pra casa desde a comemoração da morte da Austríaca. Estou sozinha!
        Ela imediatamente tomou o garoto em seus braços e correu para o térreo. Destrancou a porta da pequena casa de forma estabanada… De repente, ele percebeu que o anjo nos braços finos da pobrezinha tinha mais ou menos oito anos de idade e vestia uma espécie de camisola levemente rota. A dama em si vestia roupas simples, de dormir, e estava completamente descabelada. Ela depositou a criança nos braços do estranho e dirigiu seu olhar ao dele sem dizer uma palavra. Chorava, muda. Estúpida, agarrou um terço pendurado no pescoço e resmungou algo. Um terço monstruosamente comprido e velho… Praticamente uma corda adornando a garganta de um condenado.
        Era claro que a criança estava morta. Ou algo similar a isto. As pálpebras não se moviam e a respiração era inaudível. O rapaz sentia sede. Extrema sede.
        Pediu para que a senhora o acompanhasse, para que o pequeno tomasse maior ar fresco. Caminharam até o local de execução, e era perceptível a presença de fantasmas e pobres-diabos invisíveis guardando o novo brinquedo do Novo Regime. A mãe não calava o pranto recatado, e isto o irritava profundamente.
        Ofereceu água, um balde d’água ajudaria? Ele poderia ajudá-la a refrescar a testa e o corpo do garoto? Ela não conseguia fazê-lo sozinha naquele estado de nervos… Buscaria uma esponja e panos limpos. Seu anjinho ficaria bem logo, todo aquele ar levaria a febre embora. Ele teve que engolir seu riso irônico. O maior remédio já havia sido dado e levado o calor embora daquelas bochechas redondas… Ele sugeriu algo melhor.
       Sob os olhos desesperados da leoa, subiu os degraus lentamente... aninhou a cria no obelisco assassino… E segurou a ponta da corda. A mãe gritava alto e correu feito uma pata, tropeçando mil vezes até alcançar a escada. Uma fagulha de comoção e comédia despertou dentro dele. Então desistiu da brincadeira e abriu os braços à ela. 
        Ele está juntamente a seus irmãos anjinhos, minha querida. Lá em cima… Cortejando aquela doce criatura que foi libertada do sofrimento hoje… Pequenos Orfeus aguardam Nossa Majestade em um uníssono coro.  Um coro capaz de abafar o coro  suíno e pútrido que gritou enquanto ela ainda vivia e seus olhos lamentaram antes de serem cegados pelo metal… Metal mais caloroso que a nojenta nação que ela tanto tentou alegrar. 
        A cadela desolada havia se acalmado com o discurso… Estava destruída, catatônica… Seus pequeninos pés aos poucos sucumbiram e tomaram o caminho daquele Demônio irresistível...
        Venha, venha minha pequena Antoinette… Abraça-me como as garras afagaram o pescoço de tua irmã…
Vítor  da M. Vívolo 9/12/10 às 3h28 da manhã.

Um comentário:

  1. Vítor, adorei o conto! Sou meio suspeita porque adoro contos nesse estilo (inclusive chegou pra revista literaria do curso um parecido com o seu que eu adorei, mas as meninas votaram contra ¬¬ enfim), mas esta bem legal mesmo! Gostei das descrições, do tema... mudaria uma pontuação ou outra, talvez algumas palavras, mas coisa pequena mesmo. Gostei também da comparação da mulher com os animais. Nem sei se foi de propósito, mas foi um toque bem legal.

    Realmente dá pra expandir o conto e transformar num romance, ele parece mesmo um episodio de uma coisa maior. Mas eu gosto como está, assim meio sem começo nem final. Aí é uma questão de gosto mesmo...

    Enfim, não sei o que você esperava que eu dissesse, mas taí o que eu acho XD

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