Então, para refletir essas meus dias atuais... Reli O Vampiro Lestat... e me deparei com um trecho maravilhosamente conveniente. Um reencontro de Louis e Lestat. Antes que este último realizasse a loucura de se revelar para milhões de mortais ao vivo, como um cantor de uma banda de rock. Os vampiros antigos desejam matá-lo, puni-lo... E quem surge apenas para... acompanhar? Depois de anos de ódio, de ofensas, de... ...... bem..... leiam. E espero que estas palavras encontrem quem creio que devem encontrar. São mais um desabafo emprestado do que qualquer outra coisa. Mas vem do fundo da minha alma.
"
Três horas da manhã na véspera de nosso concerto em San Francisco:
O verde e ameno paraíso do Vale Carmel jazia adormecido. Eu estava cochilando em meu gigantesco “covil” que dava para as montanhas. Sonhava com Marius de vez em quando. Marius dizia em meu sonho:
— Por que se arrisca a ter minha vingança? E eu dizia:
— Você virou as costas para mim.
— Esta não é a razão — ele dizia. — Você age por impulso, quer jogar tudo pelos ares.
— Eu quero influenciar nas coisas, fazer algo acontecer! — eu dizia.
No sonho, eu gritava e, de repente, senti a presença da casa do Vale Carmel em volta de mim. Apenas um sonho, um sonho mortal pouco consistente.
No entanto, alguma coisa, alguma outra coisa... uma súbita “transmissão” como uma onda de rádio errante invadindo a freqüência errada, uma voz dizendo: Perigo, perigo para todos nós.
Por uma fração de segundo, a visão da neve, do gelo. O vento uivando. Algo estilhaçou-se num chão de pedra, vidro quebrado. Lestat! Perigo!
Eu acordei.
Já não estava mais deitado no sofá. Estava em pé, olhando para as portas de vidro. Não podia ouvir nem ver coisa alguma, a não ser a vaga silhueta dos morros, a forma escura do helicóptero pairando sobre o quadrado de concreto, como uma mosca gigantesca.
Eu prestava atenção com minha alma. Prestava atenção com tanta intensidade que suava. Mas a “transmissão” cessara. Nenhuma imagem.
E, então, a consciência gradual de que havia uma criatura lá fora, na escuridão, de que eu estava ouvindo minúsculos sons físicos.
Alguém lá fora, andando no silêncio. Nenhum cheiro humano.
Um deles estava lá fora. Um deles havia penetrado no segredo e se aproximava do outro lado da distante silhueta esquelética do helicóptero, através do campo aberto de grama alta.
Prestei atenção mais uma vez. Não, nem um vislumbre para reforçar a mensagem de Perigo. Na verdade, a mente daquele ser estava trancada para mim. Eu só recebia os sinais inevitáveis de uma criatura atravessando o espaço.
A casa, uma irregular construção de teto rebaixado, cochilava em volta de mim, parecendo um gigantesco aquário, com suas áridas paredes brancas e a bruxuleante luz azul do silencioso aparelho de tevê. Biscoito Doce e Alex abraçados sobre o tapete diante da lareira vazia. Larry dormia no quarto, que mais parecia uma cela, com uma tiete chamada Salamander, uma mulher sexualmente incansável que eles haviam “arrastado” de Nova Orleans antes de virmos para a Costa Oeste. Seguranças dorm iam nos outros aposentos modernos de teto abaixado e na cabana no outro lado da grande piscina azul em forma de concha.
E lá fora, sob o claro céu noturno, aquela criatura vindo, movendo-se em nossa direção, da auto-estrada, a pé. Aquela coisa que agora eu sentia que estava completamente sozinha. Batimento de um coração sobrenatural na fraca escuridão. Sim, posso ouvi-lo de modo bem distinto. As montanhas pareciam fantasmas ao longe, as flores amarelas das acácias brilhavam sob as estrelas.
Sem medo de coisa alguma, parecia. Apenas vindo. E os pensamentos absolutamente impenetráveis. Isso podia significar um dos antigos, aqueles muito habilidosos, só que os habilidosos jamais esmagariam a grama debaixo dos pés. Aquela coisa movia-se quase como um humano. Aquele vampiro tinha sido “feito” por mim.
Meu coração dava saltos. Olhei de relance para as minúsculas luzes da caixa de alarme semi-oculta pelas cortinas reunidas no canto da sala. Promessa de sirenes se alguma coisa, mortal ou imortal, tentasse invadir aquela casa.
Ele surgiu na extremidade do concreto branco. Figura alta, delgada. Cabelos escuros e curtos. E então fez uma pausa como se pudesse me ver na elétrica névoa azulada por trás do véu de vidro.
Sim, ele me viu. E moveu-se em minha direção, na direção da luz.
Ágil, deslocando-se com uma leveza um pouco maior do que a de um mortal. Cabelos negros, olhos verdes e os membros deslocando-se suavemente sob as roupas desleixadas: um suéter preto e puído, pendurado sem forma nos ombros, pernas que pareciam raios de roda compridos e negros.
Senti um bolo subir em minha garganta. Eu tremia. Tentei lembrar-me do que era importante, mesmo naquele momento, que eu devia sondar a noite à procura de outros, devia ser cuidadoso. Perigo. Mas nada disso importava agora. Eu sabia. Fechei os olhos por um segundo. Não adiantou nada, não tornou nada mais fácil.
Então, minha mão ergueu-se até os botões do alarme e desligou-os. Abri as gigantescas portas de vidro e o ar frio passou por mim e entrou pela sala.
Ele havia passado pelo helicóptero e, com os passos de um dançarino, girava o corpo para trás para olhar para ele, os polegares enganchados de modo bem casual nos bolsos de seu jeans preto. Quando olhou para mim de novo, vi seu rosto com clareza. E ele sorriu.
Até mesmo nossas lembranças podem nos trair. Ele era a prova disso, delicado e ofuscante como um laser enquanto se aproximava, todas as antigas imagens sopradas como pó.
Liguei de novo o sistema de alarme, fechei as portas de meus mortais e girei a chave na fechadura. Por um segundo, pensei: não posso suportar isso. E isso é apenas o começo. Se ele está aqui, a poucos passos de mim agora, então com certeza os outros também virão. Todos virão.
Girei, fui em sua direção e durante um silencioso momento apenas examinei-o na luz azul que penetrava o vidro. Minha voz saiu tensa quando falei:
— Onde estão a capa preta, o casaco preto de “corte primoroso”, a gravata de seda e todas aquelas bobagens? — perguntei.
Olhos grudados um no outro.
Em seguida, ele rompeu o silêncio e deu uma risada sem fazer nenhum som. Mas continuou examinando-me com uma expressão arrebatada que me deu uma alegria secreta. E com o atrevimento de uma criança, ele estendeu a mão e seus dedos correram a lapela de meu casaco de veludo cinza.
— Nem sempre se pode ser uma lenda viva — ele disse.
A voz parecia um sussurro que não era sussurro. E pude ouvir seu sotaque francês com bastante clareza, embora jamais tenha sido capaz de distinguir o meu.
Mal pude suportar o som das sílabas, sua completa familiaridade.
Esqueci de todas as coisas duras e grosseiras que tencionara dizer e apenas tomei-o em meus braços.
Abraçamo-nos de um modo como jamais fizemos no passado. Abraçamo-nos da maneira como Gabrielle e eu costumávamos fazer. Em seguida, passei a mão em seus cabelos e rosto, apenas me permitindo vê-lo de fato, como se ele me pertencesse. E ele fez o mesmo. Parecia que estávamos e não estávamos conversando. Verdadeiras vozes silenciosas que não precisavam de palavras. Balançando um pouco a cabeça. E eu podia senti-lo transbordando de afeto e de uma satisfação febril que parecia quase tão forte quanto a minha.
Mas, de repente, ele ficou quieto e seu rosto contraído.
— Sabe, pensei que você estivesse morto — ele disse. Quase não dava para ouvi-lo.
— Como me encontrou aqui? — perguntei.
— Você quis assim — ele respondeu.
Instante de confusão inocente. Ele deu de ombros com um movimento lento. Tudo que ele fazia me deixava magnetizado, do mesmo modo como ocorria há mais de um século. Dedos tão longos e delicados, e mãos tão fortes.
— Você me deixou vê-lo e segui-lo — ele disse. — Você rodou para cima e para baixo na rua Divisadero, procurando por mim.
— E você ainda estava lá?
— É o lugar mais seguro do mundo para mim — ele disse. -Nunca saí de lá. Eles foram me procurar e não me encontraram, depois foram embora. E agora fico entre eles sempre que quero e eles não me reconhecem. Na verdade, nunca souberam como eu era.
— E se soubessem, tentariam destruí-lo — eu disse.
— Sim — ele respondeu. — Mas eles têm tentado fazer isso desde o Teatro dos Vampiros e das coisas que aconteceram por lá. Claro que a Entrevista com o vampiro lhes deu mais algumas novas razões. E eles precisam de razões para fazer seus joguinhos. Precisam do estímulo, da excitação. Eles se alimentam disso como de sangue.
Por um segundo, sua voz pareceu sofrida.
Ele respirou fundo. Difícil falar sobre tudo isso. Eu queria abraçá-lo de novo, mas não o fiz.
— Mas no momento — ele disse — creio que é você que eles querem destruir. E eles sabem como você é.
Um sorrisinho.
— Todo mundo sabe agora como você é, monsieur Le Rockstar.
Deixou o sorriso alargar-se. Mas sua voz continuava baixa e educada, como sempre foi. E o rosto revelava suas emoções. Não havia mudado em nada, por enquanto. Talvez jamais houvesse.
Deslizei meu braço em torno de seu ombro e andamos juntos, afastando-nos das luzes da casa. Passamos pela enorme carcaça cinzenta do helicóptero, fomos para o campo seco e crestado pelo sol, na direção das colinas.
Creio que ser tão feliz assim é como ser infeliz, sentir tanta satisfação é o mesmo que arder nas chamas.
— Você pretende levar isso adiante? — ele perguntou. — O concerto de amanhã à noite?
Perigo para todos nós. Tinha sido um aviso ou uma ameaça?
— Sim, claro — eu disse. — Que, diabos, poderia impedir-me?
— Eu gostaria de impedi-lo — ele respondeu. — Eu teria vindo mais cedo se pudesse. Localizei-o há uma semana, depois o perdi.
— E por que deseja impedir-me?
— Você sabe o motivo — ele disse. — Quero falar com você. Tão simples as palavras, e no entanto tão cheias de significado.
— Haverá tempo depois — respondi. — Amanhã, amanhã e amanhã. Não vai acontecer nada. Você verá.
Fiquei olhando de soslaio para ele, encará-lo fazia com que seus olhos verdes me ferissem. No jargão moderno, ele era um raio laser. Mortal e delicado, ele parecia. Suas vítimas sempre o amaram.
E eu sempre o amei, não amei?, sem me importar com o que aconteceria, e como o amor pode ficar intenso se você tem a eternidade para nutri-lo, e são necessários apenas esses poucos momentos para renovar seu impulso, seu calor?
— Como pode ter certeza disso, Lestat? — ele perguntou.
Toda a sua intimidade comigo se revelava ao pronunciar meu nome. E eu não me forcei a dizer Louis da mesma maneira natural.
Estávamos andando devagar agora, sem direção, nossos braços levemente envolvendo um o corpo do outro.
— Tenho um batalhão de mortais para nos proteger — eu disse. — Haverá seguranças no helicóptero e na limusine com meus mortais. Viajarei sozinho em meu Porsche a partir do aeroporto, de modo que poderei defender-me com mais facilidade, mas teremos um verdadeiro desfile de carros. E, em todo caso, o que um bando de abomináveis rebentos do século XX pode fazer? Essas criaturas idiotas usam o telefone para fazer suas ameaças.
— Eles são mais do que um bando — ele disse. — Mas e quanto a Marius? Seus inimigos lá fora estão discutindo isso, se a história de Marius é verdadeira, se Aqueles Que Devem Ser Conservados existem ou não...
— Naturalmente, e você, acreditou nisso?
— Acreditei, assim que li — ele disse.
E passou-se entre nós um momento de silêncio, no qual talvez ambos estivéssemos nos lembrando do curioso imortal de muito tempo atrás, que vivia perguntando: onde foi que isso começou?
Era sofrimento demais para ser lembrado. Era como tirar fotografias do sótão, limpar a poeira e descobrir as cores ainda vibrantes. E as fotos deviam ser retratos de ancestrais mortos, mas eram de nós.
Fiz algum pequeno gesto mortal de nervosismo, puxei os cabelos para trás, tentei sentir o frescor da brisa.
— O que o deixa tão confiante — ele perguntou — de que Marius não vai acabar com essa experiência assim que você pisar no palco amanhã à noite?
— Você acha que algum dos antigos faria isso? — respondi.
Ele refletiu por um longo momento, mergulhando fundo em seus pensamentos, do modo como costumava fazer, tão fundo que foi como se esquecesse de que eu estava ali. E parecia que os antigos quartos assumiam forma em volta dele, que a luz a gás emitia sua iluminação inconstante, que os sons e cheiros de um tempo antigo vinham das ruas lá fora. Nós dois naquela sala de visitas em Nova Orleans, o carvão aceso na lareira sob o consolo de mármore, tudo o mais envelhecendo menos nós.
E ali estava ele agora, um jovem moderno com suéter largo e brim surrado, olhando fixamente para as colinas desertas. Desgrenhado, os olhos animados com um fogo interior, os cabelos emaranhados. Ele despertou lentamente, como se estivesse voltando à vida.
— Não. Acho que se os antigos se incomodassem com tudo isso, ficariam bastante interessados em fazê-lo.
— Você está interessado?
— Estou, você sabe que estou — ele disse.
Seu rosto ruborizou-se de leve. Ficou ainda mais humano. Na verdade, ele se parecia mais com um mortal do que qualquer outro de nossa espécie que eu já conheci.
— Eu estou aqui, não estou? — ele disse.
E eu senti uma dor dentro dele, correndo em todo seu ser como um veio de minério, um veio que podia carregar sentimentos para as profundezas mais frias.
Eu concordei com um aceno de cabeça. Respirei fundo e desviei o olhar, desejando poder dizer o que de fato queria dizer. Que eu o amava. Mas não pude fazer isso. O sentimento era forte demais.
— O que quer que aconteça, valerá a pena — eu disse. — Isto é, se você, eu, Gabrielle e Armand... e Marius estivermos juntos mesmo que por um curto período de tempo, valerá a pena. Imagine se Pandora decidir aparecer. E Mael. E só Deus sabe quantos outros mais. E se todos os antigos aparecerem. Valerá a pena, Louis. Quanto ao resto, não me importo.
— Não, você se importa — ele disse, sorrindo. Estava profundamente fascinado.
— Você só está confiante de que será algo muito excitante e de que, qualquer que seja a batalha, você vencerá.
Baixei a cabeça. Dei uma risada. Deslizei as mãos para dentro dos bolsos das calças, do modo como os homens mortais faziam naqueles tempos, e continuei andando sobre a relva. O campo ainda cheirava a sol mesmo na fria noite da Califórnia. Não lhe contei sobre a parte mortal, a vaidade de querer apresentar-me, a estranha loucura que tomava conta de mim quando me via na tela da televisão, quando via meu rosto nas capas do álbum afixadas nas vitrines das lojas de discos de North Beach.
Ele seguia a meu lado.
— Se os antigos quisessem realmente destruir-me — eu disse — você não acha que já o teriam feito?
— Não — ele disse. — Eu vi você e o segui. Mas antes disso, não pude encontrá-lo. Assim que ouvi dizer que você havia reaparecido tentei.
— Como foi que soube? — perguntei.
— Existem lugares em todas as grandes cidades onde os vampiros se encontram — ele disse. — Com certeza você já deve estar sabendo disso. — Não, não estou. Conte-me — eu disse.
— São os bares que fazem parte do que chamamos de Conexão Vampiro — ele disse, sorrindo um tanto quanto ironicamente. — São freqüentados por mortais, é claro, e conhecidos entre nós por seus nomes. Tem o Dr. Polidori em Londres, o Lamia em Paris. Tem o Bela Lugosi na cidade de Los Angeles, o Carmilla e o Lord Ruthven em Nova York. Aqui em San Francisco temos o mais fantástico de todos, talvez, um cabaré chamado Dracula's Daughter, na rua Castro.
Comecei a rir. Não pude evitar e pude ver que ele estava a ponto de rir, também.
— E onde estão os nomes citados em Entrevista com o vampiro? — perguntei fingindo indignação.
— Verboten — ele disse com um leve arquear de sobrancelhas. — Não são fictícios. São verdadeiros. Mas digo-lhe que estão exibindo seus videoclipes na rua Castro neste exato momento. Os fregueses mortais pedem isso. Eles brindam a sua saúde com seus copos cheios de bloody-mary. A dança dos inocentes reverbera pelas paredes.
Eu estava a ponto de ter um ataque de riso. Tentei me conter. Sacudi a cabeça. — Mas você também provocou uma espécie de revolução na linguagem e na moda — ele continuou da mesma maneira zombeteira e sóbria, sem conseguir manter o rosto sério.
— O que você quer dizer?
— O Poder das Trevas, O Dom das Trevas, a Trilha do Diabo... todos estão usando este novo jargão, sobretudo os vampiros menos refinados que nunca se assumiram vampiros. Eles estão imitando o que leram no livro, embora o condenem ao máximo. Estão se enfeitando com jóias de estilo egípcio. O veludo preto voltou à moda.
— Maravilha — eu disse. — Mas esses lugares, como é que eles são?
— Toda a decoração se baseia em temas vampirescos — ele disse. — Cartazes de filmes de vampiro enfeitam as paredes, e os próprios filmes são projetados continuamente em telas colocadas no alto. Os mortais que os freqüentam são o costumeiro espetáculo grotesco de tipos teatrais... jovens punks, artistas, muitos usando capas pretas e dentes caninos de plástico. Mal se dão conta de que nós também estamos ali. Em comparação com eles, nós às vezes parecemos sem graça. E sob a luz fraca quase somos invisíveis, apesar do veludo, das jóias egípcias e todo o resto. Claro que ninguém ataca esses fregueses mortais. Nós vamos aos bares de vampiro em busca de informação. Um bar de vampiros é o lugar mais seguro para um mortal em toda a cristandade. Não se pode matar no bar de vampiros.
— É espantoso que ninguém tenha pensado nisso antes — eu disse.
— Mas pensaram — ele disse. — Em Paris, e foi o Teatro dos Vampiros.
— É claro — eu admiti. Ele prosseguiu:
— Há um mês circulou o boato na Conexão Vampiro de que você havia retornado. E a notícia já era velha então. Diziam que você estava caçando em Nova Orleans, depois ficou-se sabendo o que você tencionava fazer. Conseguiram cópias de sua autobiografia antes que fosse publicada. Houve discussões sem fim sobre os filmes para a televisão.
— E por que eu não os vi em Nova Orleans? — perguntei.
— Porque Nova Orleans tem sido há meio século o território de Armand. Ninguém ousa caçar em Nova Orleans. Eles souberam de tudo através de fontes de informações de mortais, em Los Angeles e Nova York.
— Eu não vi Armand em Nova Orleans — eu disse.
— Eu sei — ele respondeu.
Pareceu perturbado, confuso por um momento.
Eu senti um leve aperto na região do coração.
— Ninguém sabe onde Armand está — ele disse um tanto quanto desanimado. — Mas quando estava lá, ele matava os mais jovens. Eles deixaram Nova Orleans para ele. Dizem que muitos dos antigos fazem isso, matam os mais jovens. Dizem isso de mim, mas não é assim. Eu caço em San Francisco como um fantasma. Não perturbo ninguém fora minhas infelizes vítimas mortais.
Tudo isso não me surpreendeu muito.
— Existem muitos de nós — ele disse — como sempre existiu. E há muitas hostilidades. Uma congregação, em qualquer cidade, é apenas um meio pelo qual três dos mais poderosos concordam em não se destruírem mutuamente, dividindo o território de acordo com as regras.
— As regras, sempre as regras — eu disse.
— Elas são diferentes agora, e mais significativas. Não se pode deixar, em absoluto, nenhum indício da matança. Nenhum cadáver deve ser deixado para os mortais investigarem.
— É claro.
— E, sob hipótese alguma, devemos permitir ser fotografados ou filmados, principalmente de perto. Não podemos correr qualquer risco que possa levar à captura, à prisão e à investigação científica feita pelo mundo mortal.
Balancei a cabeça concordando. Mas meu coração batia acelerado. Eu adorava ser o proscrito, aquele que já havia violado todas as leis. Com que então estavam imitando meu livro, não? Oh, já havia começado. Rodas postas em movimento.
— Lestat, você acha que compreende — ele disse, paciente —, mas compreende mesmo? Deixe que o mundo obtenha só um minúsculo fragmento de nosso tecido para seus microscópios e não haverá mais discussões sobre lenda ou superstição. A prova estará lá.
— Não concordo com você, Louis — eu disse. — Não é tão simples assim. — Eles dispõem dos meios para nos identificar e classificar, para mobilizar a raça humana contra nós.
— Não, Louis. Os cientistas dos dias de hoje são feiticeiros em guerra perpétua. Eles brigam por causa das questões mais rudimentares. Você teria que espalhar esse tecido sobrenatural por todos os microscópios do mundo e mesmo assim talvez o público não acreditasse numa só palavra.
Ele refletiu por um momento.
— Uma captura então — ele disse. — Um espécime vivo em suas mãos. — Mesmo assim não daria — eu disse. — E como eles poderiam agarrar-me um dia?
Mas era adorável demais — a perseguição, a intriga, a possível captura e fuga. Eu adorei.
Agora, ele estava sorrindo de uma maneira estranha. Cheio de desaprovação e prazer.
— Você está mais louco que nunca — ele disse à meia-voz. — Mais louco do que quando costumava andar em Nova Orleans, assustando deliberadamente as pessoas nos velhos tempos.
Eu ria e ria. Mas depois fiquei quieto. Não tínhamos tanto tempo assim antes do amanhecer. E, amanhã à noite, poderia rir durante toda a viagem para San Francisco.
— Louis, já pensei sobre isso de todos os ângulos possíveis — eu disse. — Será mais difícil do que você pensa começar uma guerra de verdade com os mortais...
— E você está determinado a começá-la, não? Você quer que todos, mortais ou imortais, venham atrás de você.
— Por que não? — perguntei. — Que ela comece. E que eles tentem destruir-nos do modo como destruíram os outros diabos. Que eles tentem nos eliminar.
Ele estava observando-me com aquela velha expressão de espanto e incredulidade que eu tinha visto mil vezes em seu rosto. Eu ficava todo bobo com ela, como se costuma dizer.
Mas o céu estava empalidecendo, as estrelas indo embora. Tínhamos apenas alguns preciosos momentos juntos antes da manhã de começo de primavera.
— Quer dizer que você tenciona que isso aconteça? — ele disse com um ar sério, o tom de voz mais suave que antes.
— Louis, tenciono que algo e tudo aconteça — eu disse. — Tenciono sobretudo mudar aquilo que fomos! O que somos hoje? Meros sanguessugas... repugnantes, dissimulados, sem justificativa. O velho romantismo desapareceu. Portanto, vamos dar um novo sentido. Eu preciso das luzes do palco como preciso de sangue. Anseio pela divina visibilidade. Anseio pela guerra.
— O novo mal, para usar suas velhas palavras. — E dessa vez é o mal do século XX.
— Exato — eu disse.
Mas, de novo, pensei no impulso puramente mortal, no vão impulso, para a fama terrena, para o reconhecimento. Um leve rubor de vergonha. Tudo iria ser um enorme prazer.
— Mas por quê, Lestat? — ele perguntou um tanto quanto desconfiado. — Por que o perigo, o risco? Afinal de contas, você conseguiu. Você voltou. Está mais forte do que nunca. Você conserva o velho fogo como se jamais o tivesse perdido, e você sabe o quanto ele é precioso, essa vontade de simplesmente continuar. Por que arriscar de imediato? Já esqueceu como era quando tínhamos o mundo a nossa volta e ninguém poderia machucar-nos a não ser nós mesmos?
— Isso é uma proposta, Louis? Você voltou para mim, como dizem os amantes? Seus olhos turvaram-se e ele desviou o olhar.
— Não estou zombando de você, Louis — eu disse.
— Foi você quem voltou para mim, Lestat — ele disse, tranqüilo, olhando para mim de novo. — Quando ouvi os primeiros boatos sobre você em um dos bares da Conexão Vampiro, senti algo que julgava desaparecido para sempre...
Ele fez uma pausa.
Mas eu sabia do que ele estava falando. Ele já o dissera. Eu já havia compreendido isso séculos atrás quando senti o desespero de Armand após o desaparecimento da velha congregação. Excitação, o desejo de continuar, essas coisas eram inestimáveis para nós. Mais uma razão para o concerto de rock, a continuação, a própria guerra.
— Lestat, não suba naquele palco amanhã à noite — ele disse. — Deixe que os filmes e o livro façam o que você deseja. Mas proteja-se. Vamos reunir-nos e vamos conversar. Vamos ficar juntos neste século de um modo como nunca estivemos no passado. E estou me referindo a todos nós.
— Muito tentador, meu belo rapaz — eu disse. — Houve momentos no século passado em que eu teria dado quase tudo para ouvir essas palavras. E nós vamos nos reunir, vamos conversar, todos nós, e vamos ficar juntos. Será esplêndido, melhor do que já foi antes. Mas vou subir naquele palco. Vou ser Lelio de novo, de um modo como nunca fui em Paris. Serei o vampiro Lestat para todos verem. Um símbolo, um proscrito, um capricho da natureza... algo amado, algo desprezado, todas essas coisas. Digo-lhe que não posso desistir. Não posso perder isso. E, para ser franco, não sinto o menor receio.
Preparei-me para a frieza ou a tristeza que se apossariam de mim. E odiei o sol que se aproximava tanto quanto odiara no passado. Ele virou-se de costas para o sol. A iluminação o feria um pouco. Mas seu rosto estava cheio da expressão afetuosa de antes.
— Muito bem, então — ele disse. — Eu gostaria de ir para San Francisco com você. Gostaria muito. Você me levaria junto?
Não consegui responder de imediato. Mais uma vez, a pura excitação era torturante, e o amor que eu sentia por ele de fato me deixava arrasado.
— É claro que o levarei comigo — eu disse.
Olhamos um para o outro durante um tenso momento. Ele tinha de partir agora. A manhã chegara para ele.
— Uma coisa, Louis — eu disse. — Sim?
— Essas roupas. Impossível. Quero dizer, amanhã à noite, como dizem no século XX, você irá “aposentar” esse suéter e essas calças.
Depois que ele foi embora, a manhã ficou vazia demais. Fiquei parado durante algum tempo, pensando naquela mensagem, Perigo. Esquadrinhei as montanhas distantes, os campos sem fim. Ameaça, aviso — que importava? Os mais jovens discavam o telefone. Os antigos erguiam suas vozes sobrenaturais. Era tão estranho assim?
Agora, eu só conseguia pensar em Louis, que ele estava comigo. E em como seria quando os outros chegassem.
"
Vá, meu pequeno sonho. Corra por essas estradas de números e conexões eletrônicas. E por favor encontre seu destino.
Eternamente grato a quem leu,
Vitor Lestat