O Cravo Incessante


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Despertar do Pesadelo

É desesperador despertar de um estado de consciência antes tomado por normalidade, ou o certo a se fazer. É horrível olhar-se no espelho e não reconhecer mais o reflexo que antes lhe era tão comum. Agoniante torna-se tocar uma pele que parece não ser mais sua, sentir o fardo de um corpo alienígena agora.

E assim estou.

Olho para trás e vejo todos os erros que cometi. Todos os cabrestos que eu mesmo construí a minha volta. E não consigo evitar uma simples pergunta: "Por quê?" ...

...

E eu realmente não sei a resposta.

De alguma forma estúpida restam-me poucas pessoas a quem amo - e sinto a reciprocidade - não feridas ultimamente por meu egomaníaco impulso de proteção. O que aconteceu comigo? Eu realmente feri quem amava, disse aquilo que não devia... Me afastei da criatura que mais admirei em minha vida... E como percebi isso? 

Senti-me um prisioneiro de guerra hoje. Com um membro decepado fantasma. E o fantasma simplesmente foi exorcizado sem aviso. Então pude sentir o buraco em mim, a falta de equilíbrio, a náusea espiritual. Eu mesmo arranquei e mastiguei de mim um amor que me era sincero. Eu excomunguei anjos que pousavam em meu ombro, incessantes, ouvindo meus cantos chorosos em celestial calma; e ímpar simpatia. Eu os afastei.

Resta-me ser... isso? Um demônio solitário, por própria opção, trilhando um caminho recheado de seres aos pares. Eu tive a audácia - não - a estupidez - de cuspir nos presentes que havia recebido.

Nunca duvidei que os céus me odiassem, que o inferno me desejasse, nunca. Mas sei que mereço cada tormento que me nasce. Eu que os causei. Sempre.

E agora amo quem não merece uma mancha úmida em lenço de seda, seja sangue, seja lágrima. E agora choro e lamento por não amar corretamente quem realmente merecia e me amou. Eu afundei minha jóia no rio. E suas águas fortes a levaram embora. Longe. E quem pode me garantir que serei abençoado pela visão de meu tesouro novamente? Posso eu culpar o rio se humildemente cumpriu o curso que é de sua natureza?

Você, leitor, não sabe o que é viver sabendo que porta uma Caixa de Pandora em sua mente. Eu sou meu próprio Hamurabi, eu mesmo arranco meus olhos. Eu mesmo me mutilei. E por isso eu mesmo devo sofrer solitariamente, bêbado de revolta e amargo arrependimento.

Eu te amo, meu anjo que libertei da condenação de viver junto a mim. Eu realmente te amo. Disse-lhe coisas terrivelmente injustas. Não peço seu perdão, sei que seria obsceno. Apenas queria sussurrar mais uma vez meu amor por você. Minha Gabrielle.

Preciso sumir. De tudo. De todos. Preciso pensar.

Preciso de tempo para digerir as pedras que engoli.

Me perdoem, todos vocês. Eu provavelmente sou apaixonado por você. *sorriso* Do fundo da alma, leitor. Metade dos meus conhecidos me repudia, e a metade desses eu odeio em retorno. Mas se você não está nesse grupo... Ah. Saiba que eu te amo. Amo mesmo.

Eu não respiro ar. Respiro e vivo da presença próxima de gente que tem ganchos em meu coração, profundos.

E ... eu arranquei um gancho que não era gancho... era a fechadura da minha alma.

.......Se lágrimas fossem letras..... este post seria gigantesco.

Boa noite, Gabrielle. Lestat chora por ti.

Boa noite, meu anjos leitores.

Boa noite.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Um Pincel ou Uma Caneta?

Voltei a escrever. Voltei a poetizar o sistro doente que bate em mim seu ritmo surdo e agonizante. Isso me preocupa de tantas formas... Mas a quem interessar, eis o último fruto da semente indesejada:


Retrato Escarrado
Abruptamente abandonei o úmido pincel
Dois passos para trás e a amarga epifania
Outra vez ver o inquisidor fantasma seu
Vampiro de meu brilho, ardente nostalgia
O retrato que pintei não tinha pigmentos
A tinta era fosca, amorfa era a Figura
O odor, feio e doloroso, impregnava o lamento
Tela nada mais que lápide à Sepultura
Lá vomitei tudo o que nutri por ti um dia
Me apossei do rubro que em mim queimando ardia
E escorri em tua face cínica de ironia
Veja, senhor Gray, meu maldito e só Torpor
Neste tecido encanece nosso velho amor
No peito pulsa fresca e eterna jovem dor
Vítor da M. Vívolo 14/04/10 às 00h36