O Cravo Incessante


segunda-feira, 31 de maio de 2010

Borboletas

Uma borboleta me perguntou recentemente se a depressão que sentia ao ler o que já secou, vindo da sua pena, era uma maldição ou mera teimosia.

Devo dizer primeiramente que amo essa borboleta. Ela me visita durante primaveras apenas, e longos dias de inverno se passam antes que eu a encontre. E quando esse sínodo exótico ocorre, dura pouco, bem pouco, talvez horas apenas. Mas significa muito pra mim. Essa borboleta é especial, e disse a ela há pouquíssimo tempo que temia sua partida eterna depois que sua missão polinizadora ao meu lado terminasse.

Infelizmente ouvi que deveria ser condescendente à vontade do destino. E que as companhias de sua vida sumiam assim mesmo, repentinamente. E este é o gancho que me fisgará a resposta para a pergunta acima.

Augusto dos Anjos era um escritor terrivelmente pessimista. Aliás, leia qualquer texto deste blog, eu o convido. Estou longe de me comparar a um ser que faz jus ao próprio nome - na verdade, nem busco isso. Seria estranho demais não? Levando em conta o significado de cada fragmento dele ainda por cima. Riso. Mas deixe-me voltar ao meu raciocínio. - Pessimismo é um ponto de vista válido e positivo de acordo com alguns aspectos.

Sinto que pessimismo está profundamente relacionado a esta pergunta. E irei além: dor, arrependimento, mágoa, insatisfação... Todos esses sentimentos julgados como negativos pela maioria, também estão no jogo. Agora, aí mora um erro. A perspectiva desses pontos é o essencial para seu julgamento.

Eu particularmente sou um ser eternamente crítico e auto-depreciativo. Simplesmente não aceito as limitações que são impostas a mim pela vida, e admito que esta atitude me faz bem e mal. Primeiramente, me impulsiona a desejar o inatingível a prima vista, sem o compromisso de me decepcionar caso eu não o tenha. É um jogo sem real azar. Eu espero o pior dos resultados, e caso isto seja contrariado, serei beneficiado.

Agora, em contrapartida... Toda vez que almejo algo que não está sob real controle meu (quero dizer, à mercê do tempo, da vida, de todos os fatores inumanos), uma imensa frustração me toma. E então mil possibilidades arranham minha cabeça. Sinto sede de desistência, praguejo a todos os Deuses que conheço, mirabolo razões para me convencer de que não devo ter tal atitude. Mas não adianta realmente, então, não sei dizer o remédio para este último.

Onde quero chegar? Bem. Assim como todos os sentimentos, esta força de insatisfação tem dois lados. É neutra. É mais do que errado associarmos em nossa cabeça tudo o que nos aflige como 'bom' ou 'mau'. Não existe esta divisão. Felicidade, uma sensação 'boa', pode se tornar 'ruim' - ou 'errada' - ao se atrelar com vingança, por exemplo. Significaria então que não devemos julgar estas virtudes? Obviamente não digo isso ao pé da letra. Devemos sim julgá-las, mas conscientes de que essa sentença não será imortal e está profundamente ligada com nossa situação naquele momento.

Portanto, existem pessoas pessimistas que não são infelizes. Existem pessoas satisfeitas com a vida, mas tristes. Eu sou um pessimista dos grandes. Eu não necessariamente sou sempre infeliz. E também, caso seja infeliz, não estou errado ou sendo negativo, da mesma forma. Faz sentido? Posso dizer que sendo infeliz posso estar satisfeito com certos atos meus e eternamente ingrato a outros.

Não é teimosia, não é maldição. É uma condição humana. Seu caso se enquadra na insatisfação. Tome esta ponte e busque os 110% que acha que deve buscar. Mas jamais, - jamais! - sinta-se arrependida do passado. De nada adianta. Não podemos mudar o passado. E muito menos enxergar nosso futuro. Então preocupe-se com o segundo que está respirando agora, ele sim está sendo sentido por você. Ele sim tem impacto em suas decisões.

Você é uma borboleta. A primavera nasceu graças a você. Pra que achar que o peso do outono ou do inverno está sobre seus ombros? Logo logo tudo morre, e quem vai saber renascer o florescer? Você.


PS: Mais uma vez sinto que não fiz sentido algum. Peço perdão, eu me perco na torrente de ideias e palavras tentando ser gorfadas de minha mente. Espero, incessante, ter ajudado alguém... ou ter confundido o suficiente para instalar uma reflexão no vazio ecoante.

Boa noite.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O Cancro Que Me Engole.

É engraçadíssimo como eu muitas vezes encontro sentimentos antigos, em poesias... Que foram antecipados por mim. Neste momento, por exemplo, encontrei uma poesia de três dias atrás... Que serve perfeitamente. E outro fator engraçado? Eu nem me sentia mal na hora em que a escrevi.


Eis então a dita poesia.


Cancro
Quem és tu? Irreal Narciso?
Que presente é este em suas mãos?
É o espelho de Afrodite.
Mas queira me dizer onde…
Onde está o reflexo teu.
Não há reflexo.
Como sabes então se tudo o que ama
É real, ou belas mentiras?
E caso seja uma abominável ilusão
Por que vê-la como adorável pesadelo?
Você ainda respira.
Vamos, afogue-se no tabaco vaporoso do ar
E não invoque meu nome em vão
A verdade é ditada por sua cegueira
Jamais deseje a Morte
Se você simplesmente não sente mais nada
Agora tome seu Prozac
E prepare suas dores.
A químioterapia dos cacos
estraçalhados do que fora
Começa neste instante.
Vítor da M. Vívolo 21/05/10 às 14:06

Amo vocês, quem quer que sejam. Só por me lerem. Me tira um pouco do peso do coração.

Boa noite.