Trindade
Tantas linhas tortas na partitura. Era impossível discernir gotas de sangue que foram gorfadas das notas originais da composição. No fim, fizeram belas coloraturas acidentais por todo o aposento… Alguma cor além do ouro espectral chorado pelas longas velas decadentes.
- É este o castigo que me afligirá para provar Sua existência? - levou a manga aos lábios para secar a fonte de hemácias fugitivas. - Bastardo. Filho de uma puta!
Uma punhalada de líquido impediu que continuasse. Suas entranhas se derretiam em guturais golpes de dor vermelha. Cada engasgada era o exorcismo da vida intrusa que desejava todas as curvas de sua garganta. As mãos encharcadas marcavam os móveis, tecidos e páginas virginais. Mesmo assim, ele insistia em se firmar em algo…
A respiração era arfante e úmida enquanto ele sentia a imensa queda de realidade. Taças haviam esmurrado seus ombros e se transubstanciado em cristais fedendo a álcool. Livros gordos das gotas de chuva vomitadas pelas janelas apodreciam no chão. A tinta vermelha que expelia tentava reproduzir o crepúsculo, ao pingar sobre as poças de lágrimas do céu lambidas pelo luar.
Precisava gritar, mais do que respirar, mas tinha medo. Seus pulmões já estavam praticamente do avesso. Sentia o coração em contraponto ao metrônomo sobre o piano. Era tão doloroso.
Por fim levantou-se ao notar o leão raivoso dentro de si acalmar seus rugidos. Havia abortado seus fluídos mais viscosos e rubis por completo, talvez. Cambaleou, até o chão decidir-se por endireitar o horizonte. A neblina dos olhos evaporou, e as mãos se apaixonaram pelo firme mármore da pia do banheiro.
O último dos demônios sangüíneos se estatelou no mármore confiável. Só então germinou a coragem de fitar sua ruína no espelho. Era sempre pavoroso reconhecer o monstro que já se julgava sob o véu da anemia da voz. Desdenhou da moldura de flores de lis daquele oráculo vitrificado.
Ergueu a cabeça e jurou guerra ao que viu. O abandono dos céus e infernos finalmente havia se encarnado em seu crânio. Nada regava vida em suas faces, os lábios tingidos gritavam fúnebre decreto. As veias saltavam sem cor, simulando vermes mortos estacionados sobre a carne. Os olhos escuros eram empaladores.
Uma luz nasceu em seu olhar, acorrentada à torrente salínica que dançou nas curvas do monstro refletido. Fez-se breu em sua mente e os cílios eram a represa que improvisou desesperadamente. Cobriu o rosto com os cabelos desgranhados e fatiou a pele com as unhas rubras.
- Por que não me leva?
Silêncio. Música da garoa lutando para sobreviver lá fora. Fermata daquela persistente dentro dele. Tomou consciência do peso de suas vestes ensopadas por substâncias. Eram sua deliciosa prisão, o placebo para sua dor.
Rasgou os tecidos inocentes enquanto suas garras saciavam a violência do toque. Em um segundo se encontrou liberto. Perambulou o corpo lactescente até apalpar a genitália. Esticou brutalmente a pele recheada. Sentiu a costura das cicatrizes de sua voz.
Ele era isso. Friccionou-se. O tegumento artificial do canto dos anjos. Gemeu. A escultura dos moldes gregos, incompleta. Cresceu. O espírito dos maestros apaixonados… Fricção… pela suplicante… mão puxa… voluptuosa… mão estende… Deusa da Inspiração… Mais rápido.
Volume… Olhem para ele!… calor… Recheado de aspirações daquilo que não é… fluxo de quentura… mais… ah… por favor mais… vai… vem… sobe… desce… Venham demônios! ...movimentos de quadris… Anjos! … baforada… Almas dos infernos terrestres! Venham me tocar… Me lamber… involucrar meu desejo com suas úmidas superfícies…
Explosão. Dor. Cicatrizes latejando. Exaustão. Nojo.
Ele sabia que seus dias de missão estavam contados. Apenas havia se esquecido que a invulnerabilidade dos Deuses morria fora dos palcos. E ele nada mais era do que um Evirato de Adão e Eva sucumbindo juntos à serpente da vaidade vocal.
Vítor M Vívolo 16/09/10 00:58 a.m.
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