Me deu saudade desse conto. E eu resolvi postá-lo aqui.
Boudoir
Estava adormecido por um tempo. Despertou languidamente, estendeu os braços no ar, tentando expurgar o cansaço ainda restante. Esfregou os olhos, bocejou e procurou discernir os objetos do quarto na escuridão. Sentou-se na cama e fitou as sombras. Foi quando pôde ouvir a melodia ao longe.
Então não era sonho, ele realmente podia ouvir um piano sendo derretido em notas harmoniosas. Levantou-se. Conhecia aquela música. Vibrante, densa. Uma Sonata de Haydn, tinha certeza. Caminhou até o batente da porta e descansou a cabeça na madeira fria. Tudo ainda estava afundado em trevas, apenas um resto de luz âmbar banhava as paredes. A lareira estava acesa.
Desceu as escadas, seguindo o trajeto de luz e melodia. Atingiu finalmente a sala de música. Onde estava seu amante. Sentado, usando apenas uma longa camisola de linho branco, tingida de dourado pelas chamas crepitantes. Os dedos deslizavam pelas teclas, ágeis, esguios, delicados. Queria aqueles dedos deslizando sobre sua pele, acariciando seus cabelos, descendo traiçoeiramente para onde a exitação estava sendo alimentada.
Aproximou-se cautelosamente, passo a passo… As notas graves mesclavam-se à sua densa urgência. Deixou a mãos tocarem os ombros do parceiro, que se mantinha calado. Pressionou levemente o linho, podendo sentir a carne tenra que era cobrida. Encostou seu peito nas costas do outro, que então sentiu o volume que o tocava. As notas pararam bruscamente.
A mão direita do amante tocou a sua. O perfil de seu rosto finalmente começou a ser abençoado pela luz, tornando-se visível. Um rosto pálido, ligeiramente corado pelo sangue fresco que havia sido sorvido. Mesmo assim, era sobrenaturalmente gélido. Havia necessidade em esquentá-lo, em torná-lo abrasador. O outro rapaz sorriu, de maneira fraca e sórdida, movendo-se no banco para que houvesse espaço suficiente.
Fez um convite, que foi aceito prontamente. Ambos dividiam o mínimo de distância possível. A mão da criatura frígida acariciava os joelhos do outro. Dançava malevolamente, procurando atingir a virilha. Era possível enxergar o volume formando-se também. E tudo que se ouvia eram suspiros ofegantes, súplicas silenciosas.
A mão atingiu o cobiçado órgão. O amado deixou escapar um gemido quase inaudível. Os lábios tornavam-se sedentos. Logo trataram de se aproximar. Escorregavam, e antes que percebessem, já entrelaçavam as línguas. O amado laçou o outro com seus braços, o puxou para si violentamente, a relação carnal ganhava requintes animalescos.
As camisolas começaram a ficar ensopadas de suor, aderiam-se ao corpo, revelando formas e contornos. As mãos vagavam sem rumo. Eram traiçoeiras, apalpavam tudo aquilo que era cobiçado. Até encontrarem seu caminho por debaixo das roubas, agora incômodas.
Sentiam a pele agora, sentiam a rigidez e a fúria dos hormônios. Era tudo úmido, latejante, ardente. Movimentos bruscos aconteciam, simulando a copulação. Jogos pervertidos. Provocações. O amante pairou os lábios no pescoço do acompanhante, penetrou as presas enquanto continuava o repetitivo toque. O amado sentia um fogo arder, mais vermelho que o da lareira, sentia os fluídos, o som molhado. Se contorcia inevitavelmente. O ar não era suficiente.
O vai-e-vém ficou agressivo. Cada vez mais rápido. E ondas fortes de magnetismo o dominavam. Pensava que morreria de tão intenso fogo. Chegava a sentir dor, não aguentava aquele torpor querendo sair. Um formigamento o tomou. Seus pés se contraíram, seu corpo estremeceu. Um jato quente manchou o tecido. E a dormência rascava sua mente, deliciosa. Inevitavelmente urrou notas que o piano não podia captar. Eram sopros de ar, involuntários.
E entregue nos braços do amante, sucumbiu. Exausto.
Vítor M Vívolo 12/09/09
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