O Cravo Incessante


terça-feira, 16 de março de 2010

Quinze de Março de 2010

Finalmente criei coragem para tentar narrar meu dia a todos. Espero não esquecer nenhum detalhe que julgue importante.

Meu dia começa relativamente ordinário. Levando em conta um pequeno susto com o carro de meu pai apenas, que foi amassado por um motoqueiro. Então saio de casa por volta das 15h para meu curso na Sta Marcelina. Chego ao metrô e, enquanto espero o vagão, sinto-me culpado por já ter terminado 'Adeus a Berlim' - o mais incrível e intimamente relacionado a mim livro que já li. Eu o amo. Mais do que qualquer outro.

Embarco no vagão. E depois de uma baldeação, sento-me próximo a uma mulher morena. Ela ajeitou a bolsa e, sem intenção, a apoiou sobre meu joelho. Apenas fitei o couro que tocou meu jeans e ela imediatamente corou. Desculpou-se, envergonhada, até temerosa. Lembrei-me de minha fronte séria. Eu provavelmente pareci ofendido. Fiz questão de sorrir e dizer que estava tudo bem. Quase que imediatamente ela fechou o livro que lia e tomou minha gentileza como um convite a uma conversa.

Confessou-me ser nova na cidade, havia chegado há vinte dias de Minas Gerais. Iria descer na Estação Trianon-Masp e tinha medo de se perder, já que não conhecia absolutamente nada das redondezas. Confortei-a, dizendo que as estações pelas quais estávamos passando - incluindo a de seu destino - faziam parte do lado de São Paulo que mais amo. Expliquei o quanto achava bonito a Av. Paulista e como seu ambiente era acolhedor. Então, inevitavelmente, ela me perguntou onde eu desceria. Respondi a pergunta e expliquei que era aluno de um curso teórico de música, já que pretendia ser ator ou cantor de musicais. Percebi o brilho em seu olhar.

Sua empolgação foi imediata. Ajeitou-se na cadeira e disse que estava feliz de conversar comigo, levando em conta que breve me veria em palcos... Tudo soava como um grande privilégio, ela me conhecer naquele momento. Me senti tocado na alma, a simplicidade de seu pensamento sonhador me fez rir inocentemente. Apenas deixei escapar um 'tomara'.

- Tomara nada! Pense positivo! Olha! (Apontou para o livro que lia, algo relacionado a positividade no pensamento.) O Pensamento Positivo tem uma força imensa. Você não imagina. E tem mais. Meu chefe, por exemplo, dono do lugar que vou trabalhar... É pra lá que estou indo... Eu conheci ele em MG ainda. Ele era motoboy, sabe moto-taxi? E conversamos muito. Ele sonhava em se formar em direito e ter uma empresa. Olha só! Agora eu trabalho pra ele até! Eu ainda vou te ver cantando e poder dizer que te conheci hoje! Qual é seu nome?
- Vitor.

E chegou a seu destino. Foi quando procurei me agarrar ao máximo a última imagem dela. Era relativamente gordinha, cabelos negros e presos, talvez usasse óculos. Sua blusa era rosada, sua calça era preta. E sua alegria em sonhar era contagiante.

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Saí do metrô e vi no relógio que estava absurdamente antecipado para o horário de início do curso. Mais uma vez não resisti a passear pelo Cemitério do Araçá. Adentrei seu terreno sem olhar para os lados, assim evito perguntas. Os funcionários de lá sempre me olham de forma estranha. Alguns não compreendem meu semblante sério, seguido por um caminhar sem destino, em um local que supostamente causa incômodo. A mim, queridos, é como uma casa conhecida.

Observei ao máximo o detalhe das lápides negras, dos Anjos Caídos e chorosos, dos milhares de Cristos em desespero... Cada esquina que virava, sentia meus sentidos alertas. Sempre sinto as imensas almas de pedra me fitando. E quando busco revidar o olhar, sou golpeado pela frieza mineral. Talvez os únicos confortáveis com minha presença sejam os gatos curiosos, projetando seus vultos e malícia sobre as flores mortas. Ouvi o sino badalar na pequena capela. Eram quatro horas, provavelmente.

Dirigi-me aos locais mais afastados que pude, sem perder de vista a saída. Registrei em foto as mais belas estátuas que encontrei. Nenhum ser vivo para me incomodar. Espionei a capela e apenas reconheci um altar de madeira sendo preparado para receber um caixão. Sorri. Como as pessoas conseguem sentir desconforto em um local tão lindo? Não têm como reconhecer o paradoxo de um cemitério ser tão próximo a um hospital? É a mesma beleza. O começo do ciclo infinito tão próximo do fim. Duas formas de nascer e morrer se encontram. A morte física, nascimento espiritual e de essência. E a morte dos cosmos para encarnar e tomar forma de organismo bebê. Não é maravilhoso? Por favor, digam que podem ver esse milagre sem explicação.



Lápides tão antigas e tão belas. Museus da história real. Fica cada vez mais irresistível evitar tal local. Um local seguro, longe da ambição humana. Vejam bem. Os entes daquele local garanto que são mais confiáveis que os dos demais. Ou será que estou seguindo demais a corrente sanguínea machadiana de Brás Cubas?

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Peguei o cartão de acesso e guardei na carteira. Fitei o relógio. Ainda era cedo, o que eu poderia fazer para tomar meu tempo? Já estava na faculdade, afinal. Foi quando lembrei do pequeno oratório que avistei em minha primeira visita. Fica em um local reservado, um espaço pequeno e romanticamente religioso. Seria um bom lugar.

Uma porta de vidro, com desenhos em relevo em madeira nos recepcionam. O desenho acima é Cristo, e as duas figuras laterais são tão estilizadas que não sinto interesse em reconhecê-las. Um estilo semi-bizantino. A luz da vela vermelha bruxuleante, próxima ao altar, me fisgou. Passei pela porta e percebi o silêncio delicioso. A penumbra é reconfortante. Paredes amarelas cobertas por sombras e adornadas de pequenas cruzes medievais douradas a sua direita. Ao topo esquerdo vemos uma santa. Suponho que seja Santa Marcelina.

Ao centro, de pano de fundo do Altar, vejo uma maravilhosa imagem bizantina. Maria carrega o pequeno Jesus em seu colo, e ao seus lados encontram-se Sta Marcelina e Sto Ambrósio. As cores do desenho são sedutoras. Assim complementam a bíblia aberta à esquerda, a Cruz Dourada asteada ao lado e uma pequena pirâmide, que supus ser a urna de repouso das hóstias e materiais sagrados.

Havia uma senhora rezando. Me apaixonei por ela no momento em que a vi. Era freira, ou talvez postulante. Não sei dizer. Suas vestes eram brancas. Seu cabelo era grisalho e me surpreendeu de tão brilhante. Usava óculos sobre as bochechas rosadas e enrugadas. Seu rosto era tão doce e gentil, provavelmente a imagem de vovó doce que lemos em contos de fada. Não usava os sapatos. Havia descalçado-os e tocava o chão com seus pés pequenos e marcados pela idade. Estava de olhos fechados e cabeça baixa.

Em suas mãos, um terço marrom de plástico. Sobre este, seus dedos deslizavam ocasionalmente. Então havia um intervalo em sua respiração, e seus lábios voltavam a murmurar as orações. Senti que estava compenetrada demais para notar minha presença. Não desviou a atenção do que fazia em momento algum. Decidi então deixá-la em paz. Caso seus olhos encontrassem os meus, seria embaraçoso demais.



Por fim me confortei na cadeira que havia escolhido a um tempo atrás. Respirei fundo. E pensei em minha vida. Nos últimos momentos que havia passado. Refleti sobre absolutamente tudo que passei neste mês. Sorri quando fui presenteado por imagens de momentos com amigos meus. Especificamente pensei em Diego, em Ian, em Thiago, em Thaís, em Raquel, em Silas, em Walter, em Paula, em Luísa, em Daniel... Todos. Como é possível eu amar pessoas tão diferentes? E com intensidades tão únicas? (Nota: Por favor, se seu nome não foi digitado aqui, não tome como ofensa. Pensei em nomes demais para que me lembre neste exato momento... E a narrativa deve continuar, certo?) Eu jamais teria em mente, alguns anos atrás, tantas estrelas que iluminam atualmente minha alma negra, de eterna noite. Eu sempre tentarei permanecer como luar. Mas quando há eclipse, quem salva meus pensamentos da obscura loucura são eles... Meus amigos, meus amantes, minhas estrelas.

Agradeci. Não sei ao certo a quem. Ou o motivo de tê-lo feito. Mas sussurrei 'Obrigado'. Várias vezes. Cada vez mais profundo era o significado.

Notei flores no altar. Rosas vermelhas e brancas. Levantei. Um livro abandonado em uma cadeira qualquer. Soprei um beijo a minha amiga. Obviamente ela nunca saberá dele. Próximo a saída, havia um vaso de flores silvestres mortas. Ri sozinho. E jurei que ele seria meu antigo eu. O novo estava em exibição no altar.

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O fim do dia foi marcado pela presença de dois seres que amo demais. Dois seres aos quais faltarão sempre termos exatos para expressar essa afeição. Dois seres que, se não me completam, me convencem de que posso ser boa companhia. Dois seres que se tornam necessários em minha química diária, ou posso entrar em colapso. Eu deveria odiá-los por desafiarem minha frieza e independência. Mas vocês acham que consigo? Ou que serei estúpido de tentar?

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PS: Esqueci de mencionar que pensei em Lauana no momento de reflexão do oratório. Fico tão feliz de tê-la em minha vida agora, todo sábado. Riso. E envergonhado de não ter escrito um nome tão importante pra mim. Lau, foi com você que mergulhei no fogo, não foi? Como esquecer sua marca em minha época de mudanças? Eu adoro você, muito, muito.

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